O envelhecimento da população brasileira deixou de ser apenas um dado demográfico para se tornar um fenômeno civilizatório, com impactos profundos sobre a medicina contemporânea. Entre as especialidades mais diretamente atravessadas por essa transformação está a cirurgia plástica, historicamente associada à juventude e, por muito tempo, envolta em reservas quando aplicada a faixas etárias mais avançadas.
Até recentemente, procedimentos cirúrgicos após os 60 anos eram encarados com cautela quase automática, como se a idade cronológica, por si só, constituísse um fator decisivo de contraindicação. Esse entendimento, no entanto, vem sendo progressivamente superado.
O avanço das técnicas cirúrgicas, a modernização da anestesiologia e o aprimoramento dos protocolos de segurança permitiram uma mudança de paradigma: a idade isolada deixou de ser critério absoluto, cedendo espaço a avaliações mais individualizadas e criteriosas.
Os números ajudam a contextualizar essa inflexão. Projeções do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística indicam que o Brasil deverá ultrapassar 57 milhões de pessoas com mais de 60 anos até 2040. Trata-se de uma população mais ativa, independente e consciente de suas escolhas, que valoriza funcionalidade, autonomia e qualidade de vida.
Esse movimento não é exclusivo do país. Dados da Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética apontam que pacientes acima dos 60 anos já representam cerca de 10% dos procedimentos realizados mundialmente, com tendência consistente de crescimento.
A principal explicação para esse cenário não reside em um desejo tardio de juventude, mas na evolução dos critérios médicos. A avaliação pré-operatória tornou-se mais sofisticada, incorporando o conceito de idade biológica. Aspectos como estado geral de saúde, controle de doenças crônicas, capacidade funcional e histórico clínico passaram a ocupar papel central na tomada de decisão.
Condições como hipertensão arterial ou diabetes deixaram de ser automaticamente excludentes quando adequadamente controladas e acompanhadas por equipes multidisciplinares.
Essa abordagem encontra eco no pensamento do professor Ivo Pitanguy, segundo o qual a cirurgia plástica deve ser orientada por critérios médicos rigorosos e pelo benefício real ao paciente, e não pela idade cronológica — visão que desloca o foco da aparência para a harmonia entre saúde, função e bem-estar.
Outro elemento decisivo dessa transformação foi a evolução da anestesiologia. Técnicas mais seguras e individualizadas reduziram riscos cardiovasculares, aprimoraram o controle da dor e tornaram o pós-operatório mais previsível, especialmente em pacientes mais velhos. Em paralelo, cirurgias extensas ou combinadas passaram a ser substituídas, sempre que possível, por procedimentos mais curtos e objetivos, reduzindo o tempo de exposição ao estresse cirúrgico e ampliando a margem de segurança.
A recuperação pós-operatória passou a ser reconhecida como parte central do sucesso terapêutico, com protocolos que priorizam mobilização precoce, prevenção rigorosa de trombose, acompanhamento fisioterapêutico e alta hospitalar segura.
Em uma faixa etária mais suscetível a intercorrências, esses cuidados assumem papel decisivo. Paralelamente, observa-se uma mudança nas expectativas dos pacientes acima dos 60 anos, que tendem a buscar resultados mais naturais e coerentes com sua trajetória de vida, privilegiando intervenções que ampliem conforto e funcionalidade ou atenuem sinais de cansaço, sem negar o envelhecimento nem apagar a identidade construída ao longo do tempo.
Nada disso implica indicação indiscriminada: doenças cardiovasculares graves, fragilidade clínica relevante e limitações funcionais importantes permanecem como contraindicações claras, casos em que abordagens menos invasivas ou tratamentos clínicos se impõem como alternativas mais seguras e adequadas.
A crescente procura por cirurgia plástica após os 60 anos revela, em última análise, uma mudança cultural e médica mais ampla. Envelhecer deixou de ser sinônimo de resignação e passou a ser compreendido como um processo que pode, e deve, ser acompanhado com ciência, responsabilidade e discernimento. Em uma sociedade cada vez mais longeva, a medicina moderna reafirma um princípio fundamental: qualidade de vida não tem idade, desde que a decisão seja guiada por critérios médicos rigorosos e expectativas realistas.
EDUARDO SUCUPIRA – Cirurgião Plástico, realizou a sua formação no Serviço do Prof. Ivo Pitanguy(1997-1999). É Especialista e Membro Titular da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica. Membro titular do Colégio Brasileiro de Cirurgiões (CBC) e da International Society of Aesthetic Plastic Surgery (ISAPS). Membro internacional da American Society for Aesthetic Plastic Surgery (ASAPS). Mestre e Doutor pelo Programa de Cirurgia Translacional da Escola Paulista de Medicina pela Universidade Federal de São Paulo.