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Durante mais de duas décadas, pesquisar significava praticamente a mesma coisa: abrir um buscador, comparar alguns resultados e escolher em qual link confiar.

Esse comportamento continua existindo, mas já divide espaço com um hábito que cresce rapidamente.

A Agência Webby desenvolvedora de sites analisou pesquisas recentes e o comportamento observado em projetos desenvolvidos nos últimos anos para entender por que esse movimento pode representar a maior mudança na internet desde a consolidação do Google.

Durante muito tempo, a internet foi construída sobre uma lógica simples.

As pessoas faziam uma pergunta, os mecanismos de busca organizavam milhares de páginas em poucos segundos e cabia ao usuário decidir qual delas parecia mais confiável.

Essa dinâmica moldou praticamente tudo o que conhecemos hoje.

Sites foram estruturados pensando em mecanismos de busca, empresas passaram a disputar espaço nas primeiras posições e uma geração inteira aprendeu que encontrar informação significava clicar em um link.

O comportamento começou a mudar sem provocar a mesma ruptura visual que acompanhou outras transformações da internet.

Não surgiu uma nova rede social dominando o mercado nem um equipamento substituindo o computador ou o celular. A mudança aconteceu na forma como milhões de pessoas passaram a procurar respostas.

Em vez de pesquisar um tema e visitar diferentes páginas até formar uma conclusão, cresce o número de usuários que preferem conversar diretamente com sistemas de Inteligência Artificial.

A expectativa também mudou. Antes, o objetivo era encontrar bons resultados. Agora, muitas pessoas esperam receber uma resposta pronta, contextualizada e adaptada à pergunta que fizeram.

Essa diferença parece pequena quando observada superficialmente. Na prática, ela altera a lógica que sustentou a web durante mais de vinte anos.

Dados divulgados pelo Google mostram que o buscador ultrapassou a marca de 5 trilhões de pesquisas por ano, mantendo crescimento mesmo com o avanço das plataformas de IA.

Ao mesmo tempo, levantamentos da SparkToro e da Similarweb indicam que quase 60% das pesquisas já terminam sem nenhum clique, índice que supera 68% em alguns mercados onde recursos baseados em Inteligência Artificial estão mais consolidados. Os usuários continuam pesquisando, mas uma parcela crescente encontra a resposta antes mesmo de visitar qualquer página.

Murillo Rennó, CEO da Agência Webby, acredita que essa mudança ainda está sendo subestimada por boa parte do mercado.

“Durante muitos anos, praticamente toda estratégia na internet girava em torno do clique. Hoje a resposta pode acontecer antes dele. Isso muda a forma como empresas, produtores de conteúdo e até os próprios mecanismos de busca passam a enxergar um site.”

Essa percepção não surgiu apenas observando relatórios.

Ela começou a aparecer nas conversas com clientes.

Segundo Murillo, até pouco tempo a maior parte das perguntas estava relacionada a posições no Google, volume de visitas e desempenho orgânico. Nos últimos meses, outra dúvida passou a ocupar espaço nas reuniões.

“Minha empresa aparece quando alguém pergunta ao ChatGPT?”

Essa pergunta dificilmente seria feita há dois anos.

Hoje ela aparece em empresas de segmentos completamente diferentes.

O motivo não está apenas na popularização das plataformas de Inteligência Artificial, mas na forma como elas passaram a participar do processo de decisão dos consumidores.

Antes de contratar um serviço, comparar fornecedores ou entender um assunto técnico, muita gente consulta primeiro um sistema conversacional. Quando isso acontece, a relação entre usuários, mecanismos de busca e produtores de conteúdo ganha uma nova camada.

A própria indústria começou a responder a esse comportamento.

Empresas especializadas em análise de dados, como a Amplitude, lançaram ferramentas dedicadas a medir AI Visibility, acompanhando como marcas aparecem nas respostas produzidas por plataformas como ChatGPT, Claude e Google AI Overview.

Há poucos anos, praticamente nenhuma equipe de marketing acompanhava esse tipo de indicador. Hoje ele começa a fazer parte dos relatórios de grandes empresas e agências.

Essa movimentação chama atenção por um motivo simples.

Mercados raramente desenvolvem novas categorias de software antes de perceber mudanças concretas no comportamento dos usuários.

A internet passou por transformações importantes nas últimas décadas. Vieram os smartphones, as redes sociais, os aplicativos de mensagens, o streaming e o comércio eletrônico em larga escala.

Cada uma delas alterou a forma como consumimos informação.

A diferença agora é que a mudança acontece justamente na porta de entrada da internet.

A mudança começa antes da visita ao site

Uma consequência interessante desse comportamento é que muitas empresas continuam acompanhando apenas indicadores tradicionais enquanto parte das decisões dos consumidores já acontece em outro ambiente.

Imagine alguém procurando um software de gestão, um escritório de advocacia ou uma empresa de desenvolvimento de sites.

Há poucos anos, esse processo normalmente começava com uma pesquisa no Google, seguida pela abertura de vários resultados para comparação.

Hoje cresce o número de pessoas que fazem uma pergunta diretamente as IA´s, possibilitando leads através do ChatGPT, Claude, Gemini ou a outro assistente de IA, recebem uma lista de recomendações e só então decidem quais empresas merecem uma análise mais aprofundada.

Isso ajuda a explicar por que a disputa por visibilidade ganhou uma dimensão diferente.

Durante muitos anos, aparecer entre os primeiros resultados era suficiente para entrar na disputa.

Agora existe uma etapa anterior: ser uma fonte considerada confiável para sistemas que sintetizam informações antes de apresentá-las ao usuário.

Murillo acredita que esse comportamento ainda passa despercebido por muitas empresas.

“Quando alguém pergunta ao ChatGPT quais empresas atuam em determinado segmento, dificilmente imagina todo o caminho percorrido até aquela resposta aparecer. Existe um volume enorme de informações públicas sendo comparadas. O site faz parte disso, mas ele nunca trabalha sozinho.”

Essa observação aparece com frequência nas análises realizadas pela Webby.

Empresas lembradas pelas plataformas de IA costumam apresentar informações consistentes em diferentes canais, manter descrições semelhantes sobre seus serviços e acumular referências em sites de terceiros.

Não existe um padrão único nem uma fórmula capaz de garantir recomendações, mas alguns sinais aparecem repetidamente quando diferentes fontes contam a mesma história sobre uma marca.

Essa percepção também começa a ser discutida fora do mercado de SEO.

Pesquisas internacionais mostram que 54,8% das agências já incorporam práticas de GEO às estratégias tradicionais de SEO, tratando a otimização para mecanismos generativos como parte do trabalho de busca orgânica e não como um serviço separado.

O movimento indica que a mudança deixou de ser tratada como uma tendência futura e passou a fazer parte da rotina das equipes de marketing.

Estudos reunindo dezenas de experimentos sobre Generative Engine Optimization observaram que conteúdos estruturados com estatísticas, citações, fontes verificáveis e respostas objetivas apresentam maior probabilidade de aparecer nas referências utilizadas por modelos generativos

Em alguns testes, o ganho de visibilidade superou 40% quando esses elementos eram incorporados ao conteúdo de forma consistente.

A discussão costuma girar em torno das plataformas de Inteligência Artificial, mas talvez a principal transformação esteja acontecendo em outro lugar.

Ela aparece na expectativa do usuário.

Durante anos, pesquisar significava reunir informações para formar uma conclusão.

Agora, muita gente espera que essa conclusão já venha pronta, acompanhada de contexto, comparação e recomendações.

Essa mudança reduz etapas, economiza tempo e altera o papel desempenhado pelos mecanismos de busca, pelos sites e pelos próprios produtores de conteúdo.

Ainda é cedo para afirmar como esse comportamento vai evoluir nos próximos anos.

A história da internet mostra que tecnologias mudam rapidamente e que hábitos considerados definitivos podem ser substituídos por outros em pouco tempo.

O que já pode ser observado é que a conversa sobre buscas deixou de tratar apenas de algoritmos, posições e volume de acessos.

Ela passou a envolver a forma como sistemas interpretam informações públicas antes de responder milhões de perguntas todos os dias.

Talvez seja justamente esse o motivo pelo qual tantas empresas começaram a revisar conteúdos, reorganizar seus sites e acompanhar indicadores que praticamente não existiam até recentemente.

Não porque o Google perdeu importância.

Mas porque a internet passou a oferecer um novo caminho entre a pergunta e a resposta. E, quando o caminho muda, a forma como pessoas descobrem empresas, produtos e serviços inevitavelmente muda junto.

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