Psicóloga e neuropsicóloga Daniella Fontes
alerta que preconceito, cobranças excessivas e falta de inclusão podem
comprometer a autoestima e o bem-estar emocional de crianças e adolescentes.
Crianças com autismo ou Transtorno de Déficit de Atenção e
Hiperatividade (TDAH) enfrentam rotineiramente desafios que vão muito além das
dificuldades objetivas de aprendizagem e socialização. A incompreensão
generalizada por parte de familiares, professores e da sociedade pode afetar de
forma profunda a autoestima, a saúde emocional e o desenvolvimento saudável
desses jovens.
Para analisar os impactos do estigma social e a importância
de uma rede de apoio acolhedora, conversamos com a Daniella Fontes, psicóloga,
neuropsicóloga, escritora e especialista em Neurociências e Comportamento, com
mais de uma década de experiência clínica, pericial e educacional.
Quando a incompreensão afeta a autoestima e
gera sofrimento
O autismo e o TDAH são condições do neurodesenvolvimento, e
não doenças mentais ou distúrbios de comportamento causados por falta de
educação. Contudo, a escassez de informação faz com que características
neurodivergentes sejam erroneamente interpretadas como preguiça, rebeldia ou
desobediência.
“Precisamos compreender que nem todo comportamento que
desafia nossas expectativas representa desobediência ou falta de educação.
Muitas vezes, ele expressa uma dificuldade que ainda não foi
compreendida”, afirma a especialista.
Quando crianças recebem críticas constantes e são expostas
a situações de bullying, exclusão e comparações no ambiente escolar, elas
internalizam mensagens negativas. Ouvir repetidamente que são “desatentas,
difíceis ou incapazes” compromete a autoimagem, abrindo espaço para o
surgimento de quadros de ansiedade, sintomas depressivos e isolamento social.
Diferenciando sinais e a importância da
identificação precoce
As manifestações do neurodesenvolvimento exigem uma
avaliação clínica individualizada e criteriosa, pois nenhum sinal isolado
confirma um diagnóstico:
- No
Autismo: As características podem aparecer desde os primeiros anos de
vida, incluindo diferenças na comunicação, na reciprocidade social,
comportamentos repetitivos e forte hipersensibilidade a estímulos
sensoriais (sons, luzes e texturas). - No
TDAH: Destacam-se a distração frequente, a dificuldade para concluir
tarefas prolongadas, a impulsividade e os problemas de organização lembrando
que nem toda criança com TDAH apresenta o componente de hiperatividade.
“Identificar precocemente não é antecipar um rótulo. É
evitar que dificuldades não compreendidas se transformem em experiências
repetidas de fracasso, sofrimento e exclusão”, ressalta Daniella.
Inclusão e equidade: o papel de casa e da
escola
Para transformar essa realidade, a mudança precisa começar
na forma como o entorno lida com as diferenças. Instruções claras, adaptações
razoáveis nas atividades, respeito ao ritmo próprio de aprendizagem e diálogo
contínuo entre pais e mestres são fundamentais.
A inclusão efetiva não significa deixar de estabelecer
limites ou regras de convivência, mas sim oferecer as condições necessárias
para que a criança desenvolva suas potencialidades sem a exigência de
corresponder a padrões padronizados que ignoram sua singularidade.
Perguntas frequentes sobre autismo, TDAH e
inclusão (FAQ)
O TDAH e o autismo podem ser curados com o
tempo?
Não. O autismo e o TDAH são condições neurobiológicas de
longo prazo que acompanham o indivíduo por toda a vida. Com intervenções
adequadas, terapia e apoio escolar, a pessoa aprende estratégias de
autorregulação e compensação, mas a neurodiversidade em si faz parte de sua
identidade.
Qual é a diferença entre igualdade e equidade
na educação inclusiva?
A igualdade oferece exatamente o mesmo recurso para todos,
independentemente de quem sejam. A equidade reconhece que as pessoas têm
necessidades diferentes e fornece os suportes específicos necessários para que
cada uma alcance o mesmo patamar de oportunidade e desenvolvimento.
Como os pais podem ajudar a fortalecer a
autoestima de filhos neurodivergentes?
Validando os sentimentos da criança, celebrando pequenas
conquistas diárias, criando um ambiente seguro e compreensivo em casa e,
sobretudo, olhando para o filho muito além do diagnóstico, valorizando seus
talentos e interesses genuínos.
O diagnóstico limita o futuro da criança e do
adolescente?
Pelo contrário. O diagnóstico serve como um mapa orientador
para que famílias, terapeutas e escolas compreendam o funcionamento do jovem e
ofereçam os apoios corretos, prevenindo anos de sofrimento desnecessário e
facilitando o acesso a direitos e adaptações legais.
Fonte:
Daniela Fontes – Psicóloga e Neuropsicóloga
CRP-MS: 14/04392-5
Especialista em Neurociências e Comportamento com atuação
clínica, pericial e educacional. Autora de obras voltadas à compreensão do
neurodesenvolvimento e inclusão social.