Estudo com mais de 30 mil pacientes aponta que
a perda de peso após a cirurgia bariátrica pode diminuir o risco de tumores
associados à obesidade; oncologista explica os benefícios e os cuidados
necessários.
A obesidade é considerada um dos principais fatores de
risco modificáveis para o desenvolvimento de câncer. Segundo
a Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC), vinculada à Organização
Mundial da Saúde (OMS), existem evidências científicas que relacionam o excesso
de gordura corporal a pelo menos 13 tipos de câncer.
Nesse cenário, a cirurgia bariátrica tem despertado o
interesse da comunidade médica não apenas pelos resultados no tratamento da
obesidade, mas também pelo seu potencial de reduzir o risco de determinados
tumores.
Um estudo publicado na revista científica JAMA, em 2022,
conhecido como SPLENDID, acompanhou mais de 30 mil pacientes e identificou que
aqueles submetidos à cirurgia bariátrica apresentaram um risco aproximadamente
32% menor de desenvolver cânceres associados à obesidade. A pesquisa também
apontou uma redução de cerca de 48% no risco de morte por câncer, em comparação
com pacientes com obesidade que não passaram pelo procedimento.
De acordo com o cirurgião oncológico Dr. Silvio Melo
Torres, a relação entre obesidade e câncer envolve alterações hormonais,
metabólicas e inflamatórias provocadas pelo excesso de gordura corporal.
“O tecido adiposo em excesso não é inerte. Ele mantém um
estado de inflamação crônica, eleva os níveis de insulina e de fatores de
crescimento e altera a produção de hormônios como o estrogênio. Esse ambiente
favorece a proliferação celular e o surgimento de tumores”, explica o
especialista.
Quais tipos de câncer podem ter o risco
reduzido?
Segundo o oncologista, as evidências científicas mais
consistentes envolvem tumores relacionados a alterações hormonais e
metabólicas, como os cânceres de endométrio, mama após a menopausa, ovário,
rim, fígado e pâncreas.
A redução do risco pode ser especialmente significativa
entre as mulheres, em parte devido às mudanças nos níveis de estrogênio após a
perda de peso.
O médico ressalta, entretanto, que os resultados ainda são
conflitantes em relação aos cânceres colorretal e de esôfago, não sendo
possível afirmar que a cirurgia exerça um efeito protetor nesses casos.
Cirurgia bariátrica também previne o câncer de
estômago?
Apesar dos resultados positivos para determinados tumores,
ainda não existem evidências suficientes de que a cirurgia bariátrica reduza
diretamente o risco de câncer de estômago.
No entanto, o procedimento pode representar uma
oportunidade para identificar alterações gástricas precocemente, especialmente
durante a avaliação pré-operatória.
“No Brasil, onde o câncer gástrico ainda é frequente, a
endoscopia realizada antes da cirurgia permite tratar a bactéria Helicobacter
pylori e identificar lesões precoces”, destaca Dr. Silvio Melo Torres.
O especialista também alerta para a importância do
acompanhamento após a operação. No bypass gástrico, parte do estômago fica
excluída do trânsito alimentar, dificultando o acesso por endoscopia
convencional. Já na gastrectomia vertical, conhecida como sleeve, o refluxo
gastroesofágico pode surgir ou se agravar, exigindo atenção durante o acompanhamento
médico.
Perda de peso e prevenção a longo prazo
Além da redução de peso, a cirurgia bariátrica pode
contribuir para o controle de condições associadas ao desenvolvimento de
tumores, como diabetes tipo 2 e doença hepática gordurosa.
Para Dr. Silvio Melo Torres, um dos principais benefícios
está na melhora do ambiente metabólico e inflamatório do organismo, reduzindo
fatores que favorecem o surgimento de determinados cânceres.
Apesar disso, o especialista reforça que a cirurgia não
elimina completamente o risco de desenvolver a doença e não substitui os exames
preventivos.
“O paciente operado continua precisando de rastreamento
oncológico regular, como mamografia, colonoscopia e exames ginecológicos, além
de acompanhamento multidisciplinar por toda a vida”, orienta.
A cirurgia bariátrica deve ser indicada após avaliação
individualizada, considerando as condições clínicas e os critérios médicos para
o tratamento da obesidade. Quando bem indicada, pode oferecer benefícios que
vão além do emagrecimento, contribuindo também para a saúde metabólica e a
redução do risco de determinados tipos de câncer.
Fonte:
Dr. Silvio Melo Torres – Cirurgião Oncológico
CRM: CRM-SP: 179217 | RQE: RQE: 94410
Médico especialista em Cirurgia Oncológica, atuando como
Cirurgião Titular no Centro de Referência em Tumores do Trato Digestivo do
A.C.Camargo Câncer Center uma das maiores e mais prestigiadas instituições
oncológicas e Membro Titular da Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica
(SBCO). Mestre em Oncologia pela Fundação Antônio Prudente, ele se destaca pelo
tratamento cirúrgico de alta complexidade do trato digestivo alto e órgãos
anexos. Sua prática médica alia rigor científico, inovação em cirurgia
minimamente invasiva e robótica a uma abordagem humanizada, colocando o
acolhimento do paciente no centro da jornada de tratamento.