Por Jhonata Emerick, CEO da Datarisk
Fevereiro Roxo é um mês importante para lembrar e conversar sobre doenças que ainda são pouco compreendidas pela população. Entre elas, o Alzheimer é uma das que mais preocupa. E não é só por afetar a memória e a autonomia das pessoas, mas também porque costuma ser identificado tarde demais. No Brasil, mais de 1,2 milhão de pessoas convivem com essa doença, muitas sem diagnóstico. Isso significa que famílias inteiras enfrentam desafios enormes sem saber exatamente o que está acontecendo.
Nos últimos anos, tenho me dedicado a uma pergunta que me move como pesquisador e profissional de tecnologia. Será que conseguimos usar inteligência artificial para prever o risco de Alzheimer e ajudar o sistema de saúde a agir antes? A resposta é sim. E estamos começando a mostrar como isso pode ser feito.
O ponto de partida da nossa pesquisa foi simples: o Brasil tem um dos maiores sistemas públicos de saúde do mundo, o SUS, e ele registra milhões de informações sobre consultas, exames e diagnósticos. Esses dados já existem. A questão é como usá-los de forma inteligente para beneficiar a população.
Usando técnicas avançadas de inteligência artificial, analisamos o histórico de saúde de pessoas atendidas pelo SUS ao longo de cinco anos. Avaliamos dados como idade, exames realizados, consultas médicas, problemas de visão e até diagnósticos aparentemente sem relação. A IA tem a capacidade de enxergar padrões que muitas vezes passam despercebidos porque um médico individual não tem como analisar milhões de prontuários ao mesmo tempo.
O resultado foi surpreendente. O estudo aplicou um modelo de IA para funcionar como um “radar” de risco: ao analisar padrões no histórico de saúde, ele conseguiu acertar a classificação na maior parte dos casos avaliados (89% de acerto, com AUC de 0,83). Na prática, isso não é um diagnóstico automático, é um sinal de alerta que pode ajudar a orientar quem precisa de atenção primeiro, acelerar a investigação clínica e aumentar as chances de agir cedo, quando o cuidado e o acompanhamento fazem mais diferença.
Hoje, o diagnóstico de Alzheimer costuma depender de exames caros, entrevistas longas ou especialistas que não estão disponíveis em todas as regiões do país. Isso faz com que muitos pacientes só descubram a doença quando ela já está avançada.
Com a inteligência artificial, isso pode mudar. Essa tecnologia poderia ser usada nas unidades básicas de saúde, nos postos e até nas secretarias municipais para identificar grupos de risco e acompanhar essas pessoas mais de perto. Não substitui o médico; pelo contrário, dá mais informação para que ele tome decisões melhores.
E isso é especialmente importante porque a população brasileira está envelhecendo rapidamente. Segundo a Organização Mundial da Saúde, o número de pessoas com demência deve triplicar no mundo até 2050. Se não nos prepararmos agora, o impacto sobre as famílias e sobre o sistema de saúde será enorme.
Quando falo em inteligência artificial aplicada à saúde, não estou falando de máquinas frias ou decisões automáticas. Estou falando de gente. De mães, pais, avós e amigos que merecem ter uma chance de descobrir riscos cedo o suficiente para planejar o futuro com mais tranquilidade.
A tecnologia não vai curar o Alzheimer. Ao menos ainda não. Mas ela pode ajudar a ganhar tempo, e tempo, nesse caso, é qualidade de vida. Quanto mais cedo a doença é identificada, mais cedo começam os cuidados, as adaptações e o apoio necessário.
No fim do dia, o que queremos é simples. Usar o que já temos, que são os dados do SUS para cuidar melhor de quem precisa. O Brasil tem potencial para ser referência mundial nesse tipo de inovação, e nossa pesquisa é apenas o primeiro passo dessa jornada.
Neste Fevereiro Roxo, fica o meu convite para falarmos mais sobre Alzheimer, sobre cuidado e sobre como a tecnologia pode ser uma aliada poderosa na saúde pública.