Gestão hídrica dentro das fábricas envolve mapear o uso da água, reduzir perdas, tratar efluentes, ampliar possibilidades de reúso e ajustar a operação de estações de tratamento
Quando se fala em consumo consciente de água, medidas adotadas dentro de casa costumam dominar a discussão. No entanto, uma parcela relevante do desafio está em outro ponto da cadeia: na forma como as atividades produtivas captam, utilizam, tratam e devolvem a água ao meio ambiente.
Dados divulgados pela Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico em 2026 mostram que, somente em 2025, o volume anual de água outorgado para atividades industriais em corpos hídricos de domínio da União chegou a aproximadamente 850,7 milhões de metros cúbicos. A outorga, porém, representa uma autorização de uso e não deve ser confundida com o volume efetivamente consumido pela indústria.
A própria agência aponta que compreender o percurso da água dentro das unidades produtivas permite localizar perdas e oportunidades de redução. Entre as medidas identificadas estão ajustes operacionais, manutenção de equipamentos, aperfeiçoamento do tratamento de efluentes e implantação de tecnologias de reúso.
Eficiência começa por entender onde a água é usada
Dentro de uma indústria, a água pode cumprir funções muito diferentes. Pode participar diretamente da produção, ser empregada na limpeza, no resfriamento de equipamentos ou alimentar outros processos. Por isso, reduzir o consumo nem sempre significa diminuir a captação. Para José Renato L. Martini, Diretor de Tecnologia da Conatus Ambiental, o primeiro passo é compreender a operação antes de definir intervenções.
“Uma gestão hídrica mais eficiente começa quando a indústria consegue enxergar a água como parte do processo produtivo. É preciso saber onde ela entra, onde existem perdas, qual qualidade é necessária em cada etapa e em quais pontos existe possibilidade técnica de recuperação ou reúso. Sem esse diagnóstico, decisões isoladas podem gerar pouco impacto”, explica José.
Essa análise pode envolver balanço hídrico, acompanhamento de parâmetros de qualidade e avaliação das condições de operação de Estações de Tratamento de Água e Estações de Tratamento de Efluentes, conhecidas como ETA e ETE.
Tratamento de água também exige ajuste fino
Outro ponto que interfere no uso dos recursos é a própria eficiência do tratamento. As características da água bruta e dos efluentes variam conforme a origem, o processo produtivo e as condições de operação. Isso significa que produtos, dosagens e parâmetros adequados para uma instalação não apresentam o mesmo desempenho em outra.
Esses métodos de tratamento ajudam a reproduzir as condições em escala controlada e permitem avaliar variáveis como coagulação, floculação, pH e dosagem antes de mudanças na operação. Dependendo das características identificadas, diferentes coagulantes podem ser considerados. Entre os insumos que podem ser avaliados está o policloreto de alumínio, cuja utilização e dosagem devem ser definidas de acordo com a composição da água e o objetivo do tratamento.
Segundo José, aumentar a quantidade de produtos químicos não significa necessariamente melhorar o resultado: “O objetivo deve ser encontrar uma condição operacional compatível com aquela água ou efluente. Quando a escolha do produto e a dosagem são feitas com base em ensaios e monitoramento, a estação pode trabalhar de forma mais previsível, evitando desperdícios de insumos e alterações desnecessárias no processo”, diz José Renato.
Reúso amplia a discussão sobre consumo consciente
O reúso também ganha espaço nessa estratégia. Em publicação lançada em janeiro de 2026 sobre reúso de água para fins industriais, a Confederação Nacional da Indústria apontou o aproveitamento de efluentes tratados como uma alternativa para ampliar a segurança hídrica e ajudar processos produtivos a se adaptarem aos efeitos das mudanças climáticas.
Na prática, nem toda água utilizada por uma indústria precisa necessariamente apresentar o mesmo padrão de qualidade. Dependendo da atividade e das exigências técnicas e regulatórias, a água recuperada pode ser direcionada a usos compatíveis, sem a necessidade de novas captações.
O desafio, portanto, é ampliar o conceito de consumo consciente. Para a indústria, economizar água envolve acompanhar indicadores, conhecer o próprio processo, reduzir perdas, avaliar possibilidades de reúso e garantir que o tratamento de água e efluentes opere nas condições adequadas.
Mais do que uma ação pontual, a gestão hídrica passa a fazer parte da eficiência operacional e da preparação das empresas para um cenário no qual disponibilidade, qualidade e uso responsável da água estarão cada vez mais conectados.