Débora Garcia defende um olhar mais humano para a saúde mental materna
Foto: Débora Garcia

Especialista em Psicologia Perinatal e Logoterapia fala sobre culpa, sobrecarga, rede de apoio e a importância de encontrar sentido na maternidade sem apagar a mulher que existe por trás da mãe

Quando uma criança nasce, grande parte das atenções se volta naturalmente para o bebê: como está dormindo, se está mamando, se está ganhando peso e se desenvolvendo bem. Para a psicóloga Débora Garcia, porém, existe uma pergunta que não deveria ficar em segundo plano: como está essa mãe?
Especialista em Psicologia Perinatal e Logoterapeuta, Débora direcionou sua atuação para a saúde mental materna depois de perceber, na própria escuta clínica, como a maternidade aparecia frequentemente associada às angústias das mulheres. A experiência pessoal como mãe de quatro filhos também contribuiu para que ela reconhecesse algumas dessas dores em sua própria história.
Ao aprofundar seus estudos, percebeu que as dificuldades não estavam apenas nas noites mal dormidas, na falta de apoio ou nas novas responsabilidades. Muitas mulheres pareciam viver a maternidade tentando corresponder a uma imagem ideal de mãe, sem conseguir identificar o que elas próprias desejavam, valorizavam ou consideravam importante.
Foi a partir dessa percepção que Débora passou a olhar para a maternidade também pela perspectiva da Logoterapia, abordagem que valoriza a busca de sentido, os valores, as escolhas e a forma como cada pessoa se posiciona diante das circunstâncias da própria vida.
Para ela, a maternidade pode trazer desafios profundos, mas também pode abrir espaço para perguntas importantes: quem sou eu agora? O que valorizo? O que desejo construir? Que sentido essa experiência passa a ter na minha vida?
Sem romantizar a maternidade e sem negar suas responsabilidades, Débora defende que a mulher encontre espaço para se escutar, compreender seus próprios valores e viver essa experiência de forma mais consciente e significativa.

O sofrimento pode começar antes mesmo da gestação

Quando se fala em saúde mental materna, o olhar costuma se concentrar na gravidez ou no período após o nascimento do bebê. Débora chama atenção para uma etapa que pode começar muito antes.
Mulheres que desejam engravidar e enfrentam dificuldades de fertilidade, tratamentos de reprodução assistida, sucessivas tentativas ou perdas gestacionais podem vivenciar ansiedade, frustração, solidão e processos de luto que nem sempre são reconhecidos por quem está ao redor.
Quando a gestação chega ao fim e começa o puerpério, surgem outras transformações.
Mudanças físicas e hormonais, privação de sono, amamentação, alterações na rotina e a adaptação à chegada de um bebê tornam esse período especialmente exigente.
E existe uma contradição que, para Débora, precisa ser compreendida sem culpa: uma mulher pode amar profundamente o filho e, ao mesmo tempo, não estar emocionalmente bem.

A obrigação de “dar conta de tudo”

Outro ponto frequente no consultório é a sobrecarga.
A mulher muitas vezes sente que precisa cuidar do bebê, administrar a casa, manter o trabalho, atender às demandas familiares e ainda responder emocionalmente às necessidades de todos à sua volta.
Quando não consegue cumprir esse ideal impossível, o cansaço pode ser interpretado como incapacidade ou fracasso pessoal.
A divisão das responsabilidades parentais também entra nessa discussão.
Débora questiona a ideia de que a criação dos filhos seja uma responsabilidade essencialmente materna, enquanto ao pai caberia apenas “ajudar”. Para ela, parentalidade pressupõe responsabilidade compartilhada e exige uma reorganização real da vida do casal.
A situação pode ser ainda mais pesada para mulheres que vivem a maternidade solo e precisam concentrar responsabilidades financeiras, práticas e emocionais.
Além da exaustão, muitas relatam solidão e a sensação permanente de que não existe ninguém com quem dividir a carga.

Quando a mãe parece engolir a mulher

A chegada de um filho também pode provocar uma transformação profunda na identidade.
Débora observa que algumas mulheres passam a se enxergar quase exclusivamente pelo papel de mãe e encontram dificuldade para reconhecer que continuam existindo desejos, projetos, carreira, relacionamentos e outras dimensões pessoais.
É justamente nesse ponto que a Logoterapia também pode oferecer uma contribuição importante.
Para Débora, ser mãe não precisa significar deixar de ser quem se é. A maternidade pode se tornar uma experiência de autoconhecimento, na qual a mulher revisita valores, faz escolhas mais conscientes e encontra novos sentidos para aquilo que está vivendo.
A maternidade transforma profundamente a identidade, mas não precisa apagar tudo aquilo que também constitui essa mulher.

Entre a maternidade idealizada e a maternidade real

Durante muito tempo, construiu-se a imagem de que ser mãe deveria ser uma experiência naturalmente plena, intuitiva e gratificante.
Fala-se muito do amor pelo filho, mas pouco das ambivalências, do medo, das renúncias e das transformações envolvidas.
Quando a realidade não corresponde a esse modelo, aparece a culpa.
“Se eu amo meu filho, por que estou tão cansada?”, “Por que sinto falta da minha vida anterior?” ou “Por que não consigo dar conta?” são perguntas que podem surgir.
É justamente no espaço entre a maternidade idealizada e a maternidade real que muitas mulheres passam a acreditar que há algo de errado com elas.
Débora reforça que não existe uma forma única de viver a maternidade. Cada mulher chega a essa experiência com uma história, uma personalidade, limites, desejos e valores próprios.
Quando essa singularidade é reconhecida, a maternidade deixa de ser uma prova de perfeição e pode passar a ser vivida de forma mais verdadeira e consciente.

Redes sociais e a comparação com a “mãe perfeita”

A comparação pode ampliar ainda mais esse sentimento.
Imagens de maternidades aparentemente perfeitas, organizadas e felizes convivem diariamente com uma realidade muito mais complexa, feita também de sono, dúvidas, limitações, irritação e insegurança.
Ao comparar o próprio cotidiano com essa representação, uma mulher pode concluir equivocadamente que o problema está nela.
Para Débora, abrir espaço para a realidade significa também permitir que cada mulher encontre seu próprio modo de viver a maternidade, respeitando aquilo que considera importante e significativo em sua história.

Quando é hora de procurar ajuda?

Nem todo sofrimento na maternidade significa a presença de um transtorno psicológico.
Cansaço, insegurança e oscilações emocionais podem fazer parte de uma fase de grandes mudanças. O sinal de atenção aparece quando o sofrimento se torna persistente, intenso ou passa a interferir significativamente na vida da mulher.
Tristeza ou ansiedade que não diminuem, sensação constante de incapacidade, irritabilidade intensa, dificuldade de se vincular ou de estar presente com o bebê, perda de interesse pelo que antes fazia sentido, alterações importantes no sono ou no apetite e afastamento de outras pessoas estão entre os sinais que merecem atenção.
Mas não é preciso esperar chegar ao limite para procurar apoio.
O acompanhamento psicológico também pode funcionar como espaço de prevenção, elaboração e autoconhecimento.
Mais do que procurar um único sintoma, Débora considera importante observar a intensidade, a duração e o impacto daquele sofrimento — e, principalmente, levar a sério quando a própria mulher percebe que não está bem.

Pré-Natal Psicológico também pode preparar a família

Esse cuidado pode começar antes do nascimento do bebê.
Débora destaca o Pré-Natal Psicológico como um espaço em que o casal pode conversar sobre expectativas, medos, mudanças na relação, responsabilidades e a família que pretende construir.
A proposta não é preparar ninguém para uma maternidade ou paternidade perfeita, mas favorecer a chegada à nova fase com maior consciência das mudanças e das escolhas envolvidas.
Nesse processo, também é possível refletir sobre valores, expectativas e sobre que tipo de experiência aquela família deseja construir.

Rede de apoio não é socorro de emergência

Para Débora, também é preciso rever o significado de “rede de apoio”.
A ajuda não deveria surgir apenas quando a mãe está no limite.
Rede de apoio significa compreender desde o princípio que cuidar de uma criança é uma responsabilidade compartilhada — e que quem cuida também precisa ser cuidado.
Ela amplia essa reflexão para o ambiente profissional. O retorno ao trabalho após a chegada de um filho representa outra grande transição, e empresas mais conscientes podem contribuir ao oferecer acolhimento e respeito, sem transformar a maternidade em motivo de desvalorização profissional.
No fundo, o que Débora propõe é uma mudança de perspectiva: parar de enxergar apenas a mãe que precisa cumprir tarefas e começar a perceber a pessoa inteira que existe por trás desse papel.
Cuidar da saúde mental materna também significa permitir que essa mulher continue reconhecendo sua história, seus projetos, seus limites e aquilo que dá sentido à própria vida.
Porque uma maternidade mais consciente não depende de uma mulher perfeita.
Depende também de uma família, de uma rede e de uma sociedade capazes de compreender que a mãe também precisa ter onde descansar, falar, sentir, escolher e encontrar sentido na própria experiência.

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