Depressão na adolescência: quando o silêncio começa a pedir socorro.
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Existe um tipo de sofrimento que
não faz barulho. Ele não necessariamente aparece em lágrimas, pedidos de ajuda
ou declarações explícitas de tristeza. Às vezes, ele chega disfarçado de
irritação, isolamento, excesso de celular, queda nas notas, noites mal
dormidas, abandono dos amigos ou daquela conhecida frase: “Não estou nem
aí.”

É justamente aí que, na minha
experiência clínica, percebo uma das maiores dificuldades quando falamos sobre depressão
na adolescência
. Frequentemente, olhamos para o comportamento quando, na
verdade, deveríamos estar tentando compreender o sofrimento que existe por trás
dele.

Tenho observado, ao longo da
minha prática, que muitos adolescentes não conseguem dizer que estão sofrendo. Eles
demonstram.

E essa diferença é fundamental.

Não é simplesmente “uma fase”.

Existe uma tendência perigosa de
considerar a adolescência uma espécie de território onde tudo pode ser
justificado pela idade. “É adolescente.” “É rebelde.” “Isso passa.” “Na
adolescência todo mundo é assim.”

É verdade que a adolescência
envolve transformações profundas. O jovem está construindo sua identidade,
enfrentando mudanças corporais importantes, descobrindo sua sexualidade, além
de buscar a autonomia e tentar encontrar seu lugar no mundo.

Mas justamente por ser esta uma
fase tão intensa, que ela também pode se tornar um período de grande
vulnerabilidade emocional.

“Nem toda tristeza é depressão. Mas nem toda depressão
se apresenta como tristeza.”

Essa talvez seja uma das frases que mais precisamos
compreender.

Um adolescente deprimido pode parecer
estar irritado. Pode parecer estar agressivo. Pode dormir demais. Pode parar de
conversar. Pode abandonar atividades que antes adorava. Pode apresentar queda
no rendimento escolar. Pode passar horas diante de uma tela e pode até
continuar sorrindo.

O sorriso, por si só, não é prova de saúde emocional.

A depressão pode modificar a
maneira como o adolescente percebe a si mesmo, suas relações e o próprio
futuro. Por isso, não devemos observar apenas aquilo que ele diz. Precisamos
perceber aquilo que mudou.

Quando o comportamento começa a falar.

No consultório, muitas vezes
encontramos adolescentes que chegam porque os pais perceberam alguma mudança.
Mas para o adolescente, entretanto, não necessariamente ele reconhece aquilo
como um problema. E não é difícil compreender por quê.

Para o adolescente, admitir
o sofrimento pode significar
, admitir fragilidade.

Em uma sociedade onde tudo se é cobrado, desempenho,
aparência, popularidade e sucesso cada vez mais cedo, dizer “eu não estou
conseguindo”
pode parecer uma derrota.

E como ele tenta se adaptar? Ele
se cala. Ou transforma a dor em irritação. Refugia-se no quarto. Passa horas
nas redes sociais. Começa a faltar às aulas. Perde o interesse por aquilo que
antes lhe dava prazer.

É nesse momento que precisamos mudar a pergunta.

Em vez de perguntar apenas: “O
que esse adolescente está fazendo de errado?”,
talvez devêssemos perguntar:
“O que esse adolescente está tentando comunicar através do comportamento?”

Essa mudança de perspectiva é fundamental.

O comportamento é aquilo que aparece. O sofrimento, muitas
vezes, está escondido.

As causas da depressão não cabem em uma única explicação.

Não existe uma causa única para a
depressão na adolescência. Ela pode resultar da combinação de fatores
biológicos, psicológicos, familiares e sociais.

Histórias de perdas, rejeição,
bullying, violência, abuso, conflitos familiares, isolamento social,
dificuldades escolares, problemas de autoestima e experiências traumáticas
podem aumentar a vulnerabilidade emocional.

Mas também precisamos tomar
cuidado para não transformar essa discussão em uma busca por culpados. Não se
trata simplesmente de dizer que os pais erraram ou de responsabilizar a escola.
Também não podemos colocar toda a culpa no celular.

O sofrimento psíquico é mais complexo.

Existe uma história individual, uma
personalidade em formação. Existem relações e expectativas.

Existem perdas. Existem conflitos
que, muitas vezes, nem sequer foram compreendidos pelo próprio adolescente.

É por isso que considero tão
importante olhar para o jovem dentro do contexto em que ele vive.

As redes sociais não explicam tudo — mas não podem ser
ignoradas.

Considero um erro transformar as
redes sociais na grande vilã da saúde mental dos adolescentes.

Elas fazem parte sim, da vida
contemporânea. São ferramentas de comunicação, pertencimento, informação e
expressão. O problema aparece quando a vida digital passa a funcionar como um
tribunal permanente.

O adolescente começa a medir seu
valor por curtidas. Sua aparência por filtros. Sua popularidade por seguidores.
Sua felicidade pela comparação com a vida aparentemente perfeita dos outros.

E sabemos que aquilo que aparece na tela é apenas um
recorte da realidade.

O jovem, entretanto, nem sempre
possui maturidade emocional para fazer essa distinção. Ele olha para centenas
de vidas editadas e compara todas elas com a sua vida real. A comparação nunca
termina. Quem está mais bonito? Quem está viajando? Quem tem mais amigos? Quem
recebeu mais curtidas? Quem está vivendo melhor?

E, pouco a pouco, a pergunta deixa de ser: “Quem sou eu?”
para se transformar em: “Por que eu não sou como os outros?”

Essa comparação permanente pode
atingir profundamente a autoestima de um adolescente que ainda está em
construção.

Como identificar a depressão em um adolescente?

Não existe um único comportamento capaz de diagnosticar
depressão.

O que deve chamar atenção é: uma
mudança persistente e significativa no funcionamento daquele adolescente.

Pais, responsáveis e educadores precisam observar sinais
como:

  • isolamento
    social crescente;
  • perda
    de interesse por atividades que antes proporcionavam prazer;
  • alterações
    importantes no sono;
  • dormir
    excessivamente ou apresentar insônia frequente;
  • mudanças
    significativas no apetite;
  • queda
    repentina no rendimento escolar;
  • dificuldade
    de concentração;
  • irritabilidade
    constante;
  • explosões
    de raiva;
  • cansaço
    frequente;
  • abandono
    de amigos;
  • descuido
    com a própria rotina;
  • baixa
    autoestima;
  • sentimento
    de inutilidade;
  • culpa
    excessiva;
  • desesperança;
  • perda
    de perspectiva em relação ao futuro;
  • falas
    recorrentes sobre desaparecer ou morrer;
  • comportamentos
    de automutilação.

É importante ressaltar: um sinal isolado não significa
necessariamente depressão.

Mas uma mudança significativa,
persistente e acompanhada de sofrimento merece atenção e avaliação
profissional.

E existe outro detalhe
importante: a depressão em adolescentes nem sempre aparece como tristeza. Pode
aparecer como irritabilidade, agressividade, apatia, às vezes, como isolamento.

Por isso, quando um adolescente
muda radicalmente seu comportamento, talvez a pergunta não devesse ser apenas: “O
que está acontecendo com esse menino?”
mas: “O que está acontecendo
dentro desse menino?”

O adolescente que diz “não quero conversar”

Talvez um dos maiores equívocos
seja acreditar que um adolescente que rejeita ajuda não precisa dela. Nem
sempre é assim.

Às vezes, “não quero conversar”
significa: “Eu não sei explicar o que estou sentindo.”; “Tenho medo de ser
julgado.”; “Tenho vergonha.”; “Não quero preocupar ninguém.”; “Não acredito que
alguém possa me compreender.”.

Por isso, existe uma diferença enorme entre cobrar uma
explicação e oferecer presença.

Em vez de: “Você precisa me
contar o que está acontecendo!”
talvez seja melhor dizer: “Eu percebi
que você não está bem. Não vou te julgar. Quando você quiser falar, eu estarei
aqui. E, se precisar, nós vamos procurar ajuda juntos.”

Pode parecer pouco. Mas, para um
adolescente que está sofrendo, saber que existe alguém disponível para ouvi-lo
pode representar muito.

E quando ele fala sobre morte?

Aqui não existe espaço para negligência.

Frases como: “Queria desaparecer.”; “Não aguento mais.”; “Minha
vida não faz sentido.”; “Seria melhor se eu não existisse.”; “Queria dormir e
não acordar.”; precisam ser levadas a sério.

Não devemos responder
automaticamente: “Você está falando isso para chamar atenção.”

Mesmo quando existe uma dimensão
de busca por atenção, isso não torna o sofrimento menos importante.

Quem precisa gritar para ser ouvido já está dizendo
que alguma coisa não está funcionando
.

Quando aparecem falas sobre
morte, ideação suicida, automutilação ou qualquer indicação de risco, é
fundamental procurar avaliação profissional imediatamente e, diante de risco
iminente, recorrer a um serviço de emergência.

Perguntar sobre pensamentos de
morte também não significa “colocar ideias na cabeça” do adolescente. Significa
abrir espaço para que ele possa falar sobre aquilo que talvez esteja
escondendo.

Pais não precisam diagnosticar. Precisam perceber.

Essa é uma distinção que
considero essencial. Pais não precisam aplicar testes psicológicos. Não
precisam definir se o filho tem depressão.

Não precisam transformar a casa
em um consultório, mas precisam observar, perceber mudanças, perguntar e
principalmente, precisam escutar.

E, quando necessário, precisam procurar ajuda especializada.

O problema é que ainda vivemos em
uma cultura na qual sofrimento emocional, frequentemente, é confundido com
fraqueza.

Frases como: “Você tem tudo.”; “Na minha idade eu
trabalhava.”; “Isso é falta do que fazer.”; “Você precisa sair desse quarto.”; “Pare
de ficar nesse celular.”; “Você precisa ser forte.”

Talvez o adolescente já esteja
tentando ser forte há tempo demais. Em determinados momentos, aquilo que ele
mais precisa não é de uma cobrança. É de alguém que diga: “Eu percebi que
você não está bem. Vamos entender isso juntos.”

A família também precisa aprender a escutar.

Na minha visão, uma das maiores
mudanças que precisamos produzir dentro das famílias é substituir parte da
cultura da cobrança pela cultura da escuta.

Um adolescente precisa de
limites, evidentemente. Mas também precisa sentir que pode fracassar sem perder
o amor dos pais. Precisa poder dizer que está com medo. Precisa poder admitir
que não sabe. Precisa poder falar sobre suas inseguranças. Precisa saber que
pedir ajuda não o torna fraco.

Existe uma diferença enorme entre
educar para a autonomia e exigir que o adolescente seja emocionalmente
autossuficiente antes de estar preparado para isso. Não podemos exigir
maturidade emocional de alguém que ainda está justamente aprendendo a construir
sua própria identidade.

Não podemos tratar apenas o adolescente e ignorar o
ambiente.

Outro aspecto que considero
importante na prática clínica é observar o ambiente no qual esse jovem está
inserido. Não adianta simplesmente dizer ao adolescente: “Você precisa aprender
a controlar sua ansiedade.” se ele continua vivendo diariamente em um ambiente
de violência, humilhação, pressão excessiva ou conflitos familiares intensos.

Não adianta pedir equilíbrio a
quem permanece submetido a situações que produzem desequilíbrio.

Isso não significa
responsabilizar automaticamente a família. Significa compreender que o
sofrimento individual também pode estar relacionado às relações e ao ambiente. O
adolescente não existe isoladamente. Ele está inserido em uma família, em uma
escola, em um grupo social e em uma cultura. E tudo isso participa da
construção de sua subjetividade.

O tratamento não começa necessariamente com um
diagnóstico.

Quando existe sofrimento
significativo, o caminho é buscar avaliação profissional.

Dependendo da situação,
psicólogo, psicanalista, psiquiatra, pediatra, médico de família e outros
profissionais podem participar do cuidado. Cada caso precisa ser compreendido
individualmente. Na perspectiva psicanalítica, entretanto, acredito que não
devemos nos limitar a perguntar: “Qual é o diagnóstico?”

Precisamos também perguntar: “O que esse sofrimento
significa para esse sujeito?”

O diagnóstico pode ajudar a organizar o cuidado. Mas
conhecer a história ajuda a compreender a pessoa. E é justamente aí que a
escuta clínica ganha importância.

A necessidade que muitas vezes
temos de rotular as coisas nos leva a buscar, seja na internet ou em
publicações, mas tenha uma certeza que a melhor forma de ajudar a um
adolescente é ouvi-lo, estender a mão e não rotular, não definir, pois quando
não há esses cuidados o afastamento e a perda de confiança desse adolescente só
dificultará o seu tratamento.

Ainda tem alguma dúvida? Busque
ajuda de um profissional qualificado.

Dr. Marcio Renzo –
Psicanalista

Esta coluna possui caráter informativo e não
substitui avaliação clínica individual. Diante de sinais de risco,
especialmente falas ou comportamentos relacionados ao suicídio ou à
automutilação, é fundamental buscar atendimento profissional e serviço de emergência
imediatamente.

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