Medos femininos: Quando o mundo externo invade a vida psíquica da mulher.
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Falar sobre os medos femininos na
atualidade exige ir além daquela interpretação simplista de que a mulher é
naturalmente mais ansiosa, mais sensível ou mais preocupada. Ao observarmos a
realidade contemporânea e, principalmente, aquilo que chega ao consultório,
percebemos que muitos desses medos não nascem simplesmente dentro da mulher.

Eles são construídos, alimentados
e, muitas vezes, reforçados pelas experiências que ela vivencia diariamente.
Medo da violência, medo de fracassar, medo de não ser suficientemente boa, medo
de engordar, medo de envelhecer, medo de não corresponder às expectativas, medo
de não ser uma boa mãe e, em alguns casos, até medo de escolher não ser mãe.
São experiências diferentes, mas que frequentemente possuem algo em comum: a
sensação de que existe sempre alguma coisa a provar
.

Como psicanalista, considero
importante olhar para esse sofrimento sem transformá-lo imediatamente em
diagnóstico. Antes de perguntar “o que essa mulher tem?”, precisamos perguntar “o
que está acontecendo com essa mulher?”
. Essa diferença é fundamental. O
sofrimento psíquico não aparece no vazio. Ele possui uma história, relações,
experiências, perdas, cobranças, desejos e conflitos. E, quando falamos das
mulheres contemporâneas, precisamos considerar também um ambiente social que,
ao mesmo tempo em que ampliou possibilidades de escolha, manteve e até criou
novas formas de cobrança.

O medo da violência não é
imaginação: é uma experiência concreta

Talvez nenhum medo seja tão
objetivo quanto o medo da violência. Uma pesquisa realizada pelos Institutos
Patrícia Galvão e Locomotiva, divulgada em setembro de 2026, mostrou que 94%
das mulheres brasileiras entrevistadas afirmaram sentir medo da violência no
cotidiano
. O levantamento ouviu 1.500 pessoas com 16 anos ou mais, em todas
as regiões do país. Mais do que isso: 98% das mulheres disseram modificar
hábitos e escolhas para se proteger
.

Esses números ajudam a
compreender algo que muitas vezes aparece de maneira silenciosa no consultório.
A mulher que muda o caminho para casa, que evita determinados horários, pensa
duas vezes antes de entrar em um transporte, compartilha sua localização ou
deixa de frequentar determinados lugares não está necessariamente apresentando
uma personalidade “medrosa”. Em muitos casos, está respondendo a uma realidade
que efetivamente lhe apresenta riscos.

O dado mais grave aparece quando
observamos os feminicídios. Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 1.568
mulheres foram vítimas de feminicídio no Brasil em 2025
, o maior número
desde o início da série histórica em 2015.

Isso significa que não podemos
psicologizar aquilo que possui uma dimensão social concreta. Uma mulher que
teme ser agredida não precisa simplesmente aprender a “pensar positivo”. Ela
precisa de segurança, proteção, rede de apoio e condições concretas para viver.

Do ponto de vista psicanalítico,
entretanto, existe uma segunda camada que merece atenção: aquilo que
acontece no mundo externo também pode passar a organizar o mundo interno
.

O perigo real pode produzir
hipervigilância, insegurança, dificuldade de confiar, medo das relações e uma
sensação permanente de que “alguma coisa ruim pode acontecer”.

É nesse ponto que a escuta
clínica se torna importante. Não para convencer a mulher de que seus medos são
infundados, mas para ajudá-la a compreender o que esses medos fizeram dentro
dela
.

Quando a cobrança externa se
transforma em uma voz interna?

Existe, porém, outro tipo de
violência que nem sempre deixa marcas visíveis: aquela que acontece quando as
exigências externas são incorporadas pela própria pessoa.

A mulher precisa ser
profissionalmente bem-sucedida, independente financeiramente, emocionalmente
equilibrada, fisicamente atraente, sexualmente desejável, boa companheira, boa
mãe, boa filha e, se possível, fazer tudo isso sem demonstrar cansaço.

É uma conta impossível.

No entanto, muitas mulheres
chegam a mim acreditando que o problema está justamente na incapacidade de
cumprir essa conta.

“Eu deveria dar conta.”, “Eu
deveria ser mais forte.”, “Eu não posso decepcionar.”, “Eu preciso emagrecer.”,
“Eu deveria estar mais feliz.”, “Todo mundo consegue, por que eu não consigo?”

A meu ver, uma das questões mais
dolorosas da clínica contemporânea é justamente essa transformação da cobrança
social em autocobrança. A pessoa já não precisa de alguém apontando o
dedo. Ela própria passa a ocupar esse lugar.

Uma reportagem publicada pela CNN
Brasil
em agosto de 2026, com dados do Ministério da Previdência Social,
mostrou que as mulheres responderam por cerca de 63% dos afastamentos do
trabalho por transtornos mentais em 2025
. Foram mais de 353 mil benefícios
concedidos a trabalhadoras.

O Jornal da USP também
destacou que, em 2025, ansiedade e depressão cresceram 15% em relação ao ano
anterior e se tornaram o segundo maior motivo de afastamentos no país, atrás
apenas das doenças da coluna; as mulheres representaram mais de 60% dos
afastamentos por saúde mental.

Esses números não autorizam
concluir que toda mulher esteja adoecendo pela mesma razão. Mas nos convidam a
olhar com mais atenção para a combinação entre trabalho, responsabilidades
familiares, expectativas sociais e vida emocional.

Na prática como psicanalista,
percebo que muitas vezes o sofrimento aparece justamente quando a mulher não
consegue mais sustentar a imagem de que “dá conta de tudo”. E talvez seja
necessário perguntar: quem disse que ela precisava dar conta de tudo?

O corpo feminino transformado
em uma tarefa interminável.

Se existe um lugar onde a
cobrança contemporânea se tornou particularmente cruel, esse lugar é o corpo. A
mulher não recebe apenas a mensagem de que precisa ser bonita. Ela recebe a
mensagem de que precisa estar permanentemente melhorando sua beleza.

“Mais magra, mais jovem, mais
definida, sem rugas, sem cabelos brancos, etc..”.

A Folha de S.Paulo abordou essa
questão em junho de 2026 ao discutir o aumento da carga emocional associada à
pressão estética. A reportagem chamou atenção para a experiência de mulheres
que precisam investir continuamente tempo, dinheiro e energia na manutenção da
aparência.

Essa questão se torna ainda mais
complexa nas redes sociais. A imagem que aparece na tela não é necessariamente
a imagem de uma pessoa real, mas muitas vezes é percebida como se fosse.
Filtros, iluminação, edição e procedimentos produzem uma espécie de padrão
impossível que passa a ser utilizado como parâmetro para avaliar o próprio
corpo.

Uma pesquisa publicada na International
Journal of Psychology
em 2025 encontrou associação entre comparação baseada
na aparência nas redes sociais e preocupações dismórficas em mulheres usuárias
dessas plataformas, apontando também que uma maior apreciação corporal pode
funcionar como fator protetivo.

Aqui, novamente, considero
perigoso reduzir tudo a “baixa autoestima”. O problema pode ser muito mais
profundo. Quando uma mulher olha para o espelho e enxerga apenas aquilo que
precisa ser corrigido, talvez o problema não esteja somente no espelho. Talvez
esteja na maneira como ela aprendeu a olhar para si.

É justamente nesse ponto que
algumas ideias de Carl Jung, psicólogo suíço, podem enriquecer a reflexão.

Jung desenvolveu o conceito de persona
para pensar “a face” que apresentamos ao mundo, os papéis sociais e a imagem
com a qual nos identificamos. A persona não é necessariamente algo negativo.
Precisamos de papéis sociais para viver. O problema aparece quando passamos a
acreditar que somos exclusivamente aquilo que mostramos.

A mulher pode construir a persona
da mulher forte. Da profissional perfeita. Da mãe incansável. Da companheira
que não reclama, entre outras. Mas o que acontece com aquilo que não cabe nessa
imagem?

Pode surgir justamente aquilo que
Jung chamou de sombra: conteúdos que foram rejeitados, reprimidos ou não
reconhecidos pela consciência. A Associação Internacional de Psicologia
Analítica destaca que, na formulação junguiana, a sombra envolve aspectos da
personalidade que permanecem fora da consciência e que podem aparecer também
por meio de projeções.

Por isso, considero inadequado
utilizar Jung para dizer que existe uma espécie de “arquétipo feminino”
responsável pelo sofrimento das mulheres. A questão é mais complexa.

O sofrimento pode surgir
justamente do conflito entre aquilo que a mulher sente e aquilo que acredita
que deveria sentir. Ela pode amar os filhos e, simultaneamente, desejar ficar
sozinha. Pode amar o parceiro e desejar independência. A psique humana é
contraditória. E reconhecer essa contradição não significa fracassar. Significa
começar a conhecer a própria realidade interna.

“O inconsciente acontece fora
como destino”

Existe uma passagem de Jung em Aion
que considero especialmente pertinente para essa discussão. Ele escreveu: “Quando
uma situação interior não se torna consciente, ela acontece fora, como
destino.”

Essa frase é frequentemente
reproduzida na internet em uma versão diferente: “até tornar o inconsciente
consciente, ele dirigirá sua vida…”. A passagem original de Jung é mais
precisa e está relacionada justamente à maneira como conflitos não reconhecidos
podem ser projetados ou vividos externamente. Para mim, essa ideia possui
enorme valor clínico.

Quantas vezes uma mulher repete
relacionamentos nos quais precisa provar seu valor?

Quantas vezes aceita uma posição
de inferioridade porque aprendeu que precisa agradar?

Quantas vezes abandona seus
próprios desejos para evitar conflitos?

Quantas vezes acredita que
“sempre escolhe errado”, quando talvez esteja repetindo uma dinâmica que ainda
não conseguiu compreender?

É aqui que a psicanálise pode
oferecer um espaço de investigação.

Não para culpabilizar a mulher
por aquilo que lhe aconteceu, mas para ajudá-la a perceber aquilo que passou a
repetir sem perceber.

Maternidade: quando o desejo
próprio se mistura com o desejo dos outros.

Poucos temas revelam tanto a
interferência das expectativas sociais quanto a maternidade.

Durante muito tempo, a identidade
feminina esteve profundamente associada à ideia de ser mãe. Hoje, felizmente,
essa relação vem sendo questionada. Algumas mulheres desejam filhos; outras não
desejam; outras permanecem ambivalentes.

E a ambivalência também precisa
ser respeitada. Uma mulher pode desejar profundamente um filho e, ao mesmo
tempo, ter medo de perder sua liberdade. Pode querer ser mãe e temer não ser
uma boa mãe. Pode decidir não ter filhos e sentir-se absolutamente segura. Ou
poder tomar essa decisão e, anos depois, experimentar sentimentos
contraditórios.

Não existe uma única experiência
feminina.

O que me interessa como
profissional de saúde mental é perguntar: esse desejo pertence realmente à
mulher ou é um desejo que ela aprendeu que deveria possuir?

Essa pergunta é importante porque
a individuação, conceito central na psicologia analítica, envolve justamente um
processo de diferenciação em relação às expectativas coletivas. Tornar-se quem
se é não significa ignorar a sociedade, mas deixar de ser completamente
determinado por ela.

E então chega o medo de
envelhecer.

Existe ainda um medo
particularmente silencioso: o medo de envelhecer.

A sociedade contemporânea parece
ter dificuldade de aceitar o envelhecimento feminino. O corpo masculino pode
carregar marcas do tempo como sinais de experiência; o corpo feminino
frequentemente é tratado como algo que precisa esconder os sinais de sua própria
história.

A mulher envelhece, mas recebe
constantemente a mensagem de que deveria parecer jovem. E isso produz uma
contradição difícil de sustentar. Se a juventude é considerada o período de
maior valor, o que acontece quando ela termina?

A vida não deveria ser
compreendida como uma tentativa permanente de permanecer no mesmo estágio. A
individuação pressupõe transformação. A pessoa muda e a relação que mantém
consigo mesma também precisa mudar.

É nesse sentido que considero
fundamental ressignificar o envelhecimento feminino.

Envelhecer não significa deixar
de existir. Não significa deixar de ser desejável. Não significa perder
relevância. Não significa deixar de construir novos projetos. Talvez o desafio
seja justamente permitir que a mulher descubra outras formas de beleza, desejo,
realização e identidade que não estejam exclusivamente vinculadas à juventude.

O que eu penso como
psicanalista?

Ao reunir esses diferentes medos,
percebo que existe uma questão que atravessa muitos deles: o medo de não ser
suficiente
. Não ser suficientemente bonita, jovem, produtiva, boa mãe,
forte, desejável, independente. E, por trás dessa busca permanente pela
suficiência, pode existir uma dificuldade ainda mais profunda: a de
reconhecer o próprio desejo
.

Minha posição como psicanalista é
que precisamos parar de tratar todo sofrimento feminino como uma falha
individual. Há mulheres que realmente precisam modificar aspectos de suas
vidas, estabelecer limites, rever escolhas e assumir responsabilidades. Mas
isso é muito diferente de dizer que elas são culpadas por sofrer. O sofrimento
precisa ser escutado antes de ser corrigido.

Essa é uma questão que atravessa
também outros textos que venho produzindo sobre saúde mental: não basta parecer
bem
; é preciso poder reconhecer aquilo que acontece internamente. Em meu
trabalho, tenho insistido justamente na importância do autoconhecimento e da
escuta como caminhos para que a pessoa deixe de simplesmente sobreviver às
próprias emoções e passe a compreendê-las. Essa preocupação aparece também em
textos publicados em meu site sobre saúde mental, depressão e violência
doméstica.

Por isso, quando uma mulher chega
ao consultório dizendo “eu não sei mais o que há de errado comigo”, minha
primeira preocupação não é encontrar rapidamente um rótulo.

É escutar. Escutar sua história. Escutar
seus medos. Escutar aquilo que ela não consegue dizer. Aquilo que aprendeu a
esconder, inclusive, aquilo que ela acredita que não deveria sentir.

Porque talvez uma das maiores
formas de sofrimento seja passar a vida inteira tentando corresponder àquilo
que esperam de nós e, em algum momento, perceber que já não sabemos mais o que
nós mesmos desejamos.

E é justamente aí que a
psicanálise pode abrir uma possibilidade: não a de construir uma mulher
perfeita, mas a de permitir que uma mulher possa, finalmente, ser sujeito da
própria história
.

Talvez seja esse o verdadeiro
sentido de olhar para os medos femininos de nosso tempo: não perguntar apenas “do
que as mulheres têm medo?”
, mas também perguntar:

“Que vida estamos construindo
para que tantas mulheres precisem ter medo de não serem suficientes?”

Essa pergunta não diz respeito
apenas às mulheres.

Diz respeito à sociedade, às
relações, à cultura e, sobretudo, à maneira como cada um de nós aprende a olhar
para o outro e para si mesmo.

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