Após meses de mobilização voluntária, movimento popular entrega à Fundação Estadual de Meio Ambiente documento que questiona impactos da mineração de terras raras e cobra participação efetiva da comunidade no licenciamento
O Movimento Rara é a Vida – grupo de moradores organizados da Zona Sul de Poços de Caldas – encaminhou, nesta quinta-feira (11/09), à Fundação Estadual de Meio Ambiente (FEAM) um documento com as principais preocupações da comunidade em relação ao Projeto Colossus, da mineradora Viridis. O ofício é o resultado de 8 meses de escuta, estudo e mobilização ativa e voluntária dos moradores, e solicita expressamente sua inserção no processo referente ao licenciamento ambiental do empreendimento.
O documento é um desdobramento direto da reunião realizada em 27 de julho de 2026, quando o movimento requisitou escuta durante a visita da FEAM ao município.
É a primeira vez que o grupo consegue produzir e protocolar um documento junto à FEAM. Mesmo contando com a articulação de especialistas e pesquisadores voluntários, o movimento precisou de tempo para elaborar a manifestação – o que evidencia, segundo os moradores, a dificuldade de participação popular em processos de licenciamento ambiental.
“Estamos fazendo tudo o que podemos e sabemos. Estudamos os documentos oficiais, fazemos reuniões informativas, produzimos conteúdo para as redes sociais, cuidamos dos moradores que apresentam crises nervosas, buscamos assessoria jurídica voluntária. E,
ainda assim, nada tem sido capaz de frear este empreendimento. O licenciamento não foi feito para pessoas simples. E isso já diz muito sobre esta disputa”, afirma Danielle Vilas Boas, integrante do movimento.
Principais pontos do documento
O ofício entregue à FEAM está estruturado em quatro eixos e apresenta questionamentos técnicos, sociais e econômicos sobre o projeto. Entre os destaques estão:
1. Tempo e participação popular
O movimento questiona a efetividade da única audiência pública realizada, em maio de 2025, que ocorreu poucos meses após a publicação do EIA/RIMA – um documento com milhares de páginas técnicas. Segundo os moradores, a população não teve tempo hábil para compreender o projeto e formular questionamentos qualificados. “Se, ainda em 2026, depois de todo o esforço voluntário para estudar o projeto, encontramos uma população que conhece pouco sobre o empreendimento, é difícil sustentar que os espaços de participação oferecidos em 2025 tenham sido suficientes”, afirma o documento.
2. Risco hídrico
O documento alerta que a área prevista para a implantação do Projeto Colossus está inserida em uma região de reconhecida importância para a recarga hídrica do Planalto de Poços de Caldas. Por isso, a preocupação dos moradores não se limita à eventual supressão direta de nascentes apontadas no EIA/RIMA. A questão central é compreender como a implantação de um empreendimento dessa magnitude poderá alterar os processos de infiltração, recarga subterrânea, escoamento e funcionamento hidrológico da sub-bacia do Vargem de Caldas.
O documento defende a realização de estudos técnicos independentes e integrados que permitam avaliar, com segurança, os possíveis efeitos do Projeto Colossus sobre os recursos hídricos do município, considerando também os impactos cumulativos e sinérgicos com os demais empreendimentos minerários previstos para a região.
3. Proximidade da área urbana
As cavas previstas estão a menos de 300 metros de residências e a menos de 1 km de escolas, creches e do Hospital Municipal. O documento questiona a suficiência dos estudos de dispersão de partículas e exige o afastamento do empreendimento para uma distância segura. “Não aceitamos nenhuma medida mitigatória que tente justificar a permanência de uma mina de grau 6 a essa proximidade de uma região densamente povoada”*, afirmam os moradores.
4. Saúde e vulnerabilidade
O movimento destaca que os estudos apresentados parecem considerar uma “população idealizada como saudável”, ignorando que a Zona Sul concentra idosos e crianças – grupos
mais vulneráveis à poluição. O documento cita ainda o aumento de 26,6% nos registros de câncer na Santa Casa de Poços de Caldas entre 2024 e 2025, passando de 1.062 para 1.344 casos, e questiona se os estudos de impacto à saúde consideraram o perfil epidemiológico real da região.
5. Impactos econômicos e identidade territorial
O documento contrapõe os 79 empregos diretos projetados pela Viridis à economia do turismo, que movimenta R$ 1,2 bilhão por ano, recebe 2 milhões de visitantes e gerou R$ 10 milhões em ISS em 2024. “Vale trocar uma vocação econômica que gera R$ 1,2 bilhão por ano e emprega milhares de famílias por algumas centenas de empregos que podem não ficar com os moradores da Zona Sul?”, questiona o texto.
6. Violência e racismo ambiental
O movimento chama a atenção para os efeitos secundários da mineração, citando estudos que correlacionam a atividade extrativa ao aumento da violência contra mulheres e populações negras. O documento lembra que, em Mariana, o distrito de Bento Rodrigues – o mais atingido pelo rompimento da barragem – tinha 84,3% de população negra, e em Brumadinho, a área afetada pelo Rio Paraopeba era composta por 63,8% de pessoas negras. “Não queremos que a Zona Sul seja mais uma zona de sacrifício racial, nem mais um território onde as mulheres pagam com o corpo o preço da mineração”, afirma.
7. Atuação da empresa antes do licenciamento
O documento critica a presença da Viridis no cotidiano da cidade antes da conclusão do licenciamento, com financiamento de eventos, patrocínio de projetos e distribuição de uniformes nos quais a logomarca da empresa aparece ao lado da logomarca da Prefeitura. “A Prefeitura não é parceira da Viridis; é a instância responsável por fiscalizar e proteger a população dos impactos desse empreendimento”, destaca o texto.
8. Relação entre Prefeitura e mineradora
O movimento questiona o Protocolo de Intenções assinado em fevereiro de 2024 – antes da publicação do EIA/RIMA – e a emissão da Certidão de Uso e Ocupação do Solo nº 025/2024, também anterior aos estudos. O documento cita ainda que a Prefeitura admitiu não ter geólogo nem engenheiro de minas em seu quadro técnico para fiscalizar a mineração.
Pedidos à FEAM
O documento solicita formalmente:
1. A inserção do documento no processo para que conste nos autos do licenciamento; 2. Aproximação contínua da FEAM com a comunidade, com visitas e espaços de diálogo ao longo do processo;
3. Realização de estudos técnicos complementares e independentes, nos aspectos hídrico, sanitário, sociocultural e de dispersão de partículas;
4. Avaliação integrada dos impactos cumulativos e sinérgicos dos projetos Colossus, Caldeira e Morro do Ferro;
5. Suspensão da tramitação do licenciamento até que as lacunas identificadas sejam sanadas e a população tenha tempo hábil para se manifestar.
“Estamos pedindo socorro e ninguém ouve”
O documento encerra com um apelo:
“Estamos fazendo tudo o que podemos e sabemos. Estudamos os documentos oficiais. Fazemos reuniões informativas. Produzimos conteúdos. Procuramos a imprensa. Registramos denúncias. Cuidamos dos moradores que apresentam crises nervosas. Buscamos assessoria jurídica. Buscamos movimentos parceiros. Uma série de ações realizadas por voluntários que despendem de tempo, energia e, muitas vezes, de seus próprios recursos para a luta. E nada, até o momento, tem sido capaz de frear este empreendimento. Estamos pedindo socorro e ninguém ouve. Queremos muito confiar que, além de ouvidos, algo vai ser feito. Não é possível conceber tamanha injustiça com a nossa gente.”
O documento pode ser acessado no Instagram do movimento @rara_e_a_vida ou através do link: https://drive.google.com/file/d/1xNnwPEm_NF57iD8MpB31Co-x4uC-4Wch/view