Unindo Alergologia e Fisiologia Respiratória, a médica e pesquisadora Dra. Caroline Pássaro desmistifica receios de pais e explica como a imunização atua como escudo sistêmico contra infartos, AVCs e perda da capacidade funcional pulmonar
O ato de se vacinar frequentemente é associado apenas à prevenção imediata de uma gripe ou infecção aguda. No entanto, o impacto real da imunização na saúde pública — sobretudo nos extremos da vida, como a infância e a terceira idade — é muito mais profundo e sistêmico. De acordo com a médica alergista, imunologista e anestesiologista Dra. Caroline Pássaro (MD PhD), a vacinação adequada é uma estratégia fundamental para proteger a autonomia dos idosos e assegurar o desenvolvimento saudável das crianças, mesmo aquelas que convivem com quadros alérgicos.
O Escudo Respiratório e Sistêmico na Terceira Idade
Com o envelhecimento natural do corpo, o sistema imunológico passa por um processo chamado imunossenescência, deixando os idosos mais expostos a complicações de saúde. Nesse cenário, vacinas como a da Influenza (gripe) e a Pneumocócica funcionam como um verdadeiro pilar de sustentação da capacidade funcional do pulmão a longo prazo.
“A vacinação contra influenza e contra o pneumococo tem um papel muito importante na preservação da saúde respiratória dos idosos, indo além da simples prevenção de infecções agudas”, esclarece a Dra. Caroline Pássaro, do Instituto Gilberto Kocerginsky. “Ao evitar episódios repetidos de pneumonia, ajudamos a preservar a capacidade pulmonar e a qualidade de vida, reduzindo o risco de fragilidade e dependência funcional. Vacinar-se significa proteger a autonomia e a função respiratória ao longo do envelhecimento.”
A especialista, que possui doutorado na área de Fisiologia Respiratória pela UFRJ, ressalta que as agressões infecciosas repetidas podem acelerar a perda de fôlego e causar danos permanentes ao tecido pulmonar. Mas o benefício não para nos pulmões: a proteção gerada pelas vacinas reduz drasticamente a inflamação generalizada que essas infecções causam, atuando diretamente na prevenção de eventos cardiovasculares graves, como infarto agudo do miocárdio e Acidente Vascular Cerebral (AVC).
“Ao reduzir o risco e a gravidade de doenças como gripe e pneumonia, a vacinação ajuda a evitar a piora de comorbidades, internações e eventos cardiovasculares. Dessa forma, ela atua como um importante escudo sistêmico”, pontua.
Mitos na Infância: Crianças Alérgicas Podem e Devem Ser Vacinadas
Se na terceira idade o desafio é manter a autonomia, na infância o principal obstáculo para a cobertura vacinal ainda é o receio infundado dos pais. É comum que famílias de crianças com diagnóstico de asma, dermatite atópica ou alergias alimentares tenham medo de aplicar as doses do calendário básico, suspeitando de reações adversas graves.
“A grande maioria dessas condições não representa contraindicação para nenhuma vacina do calendário infantil”, desmistifica a médica. “Um erro frequente é associar qualquer reação à alergia. Febre, dor local, vermelhidão e mal-estar são reações esperadas do próprio sistema imunológico em resposta à vacina, bem diferentes de reações alérgicas verdadeiras, que são raras — o choque anafilático, por exemplo, ocorre em poucos casos por milhão de doses.”
A alergia ao ovo também costuma afastar pais dos postos de vacinação em campanhas contra a gripe, uma preocupação que a ciência já superou. “Hoje sabemos que a vacina influenza pode ser administrada com segurança mesmo em pacientes com alergia ao ovo, incluindo aqueles com histórico de reações mais intensas, seguindo as recomendações atuais das sociedades científicas”, assegura a especialista.
Aliada Vital Contra as Crises de Asma
O consultório da alergista revela que, na verdade, os pacientes asmáticos e hiperreativos são justamente os que mais necessitam da cobertura vacinal em dia, uma vez que os vírus respiratórios — como a Influenza e o Vírus Sincicial Respiratório (VSR) — figuram entre os principais gatilhos para crises graves.
“Crianças com asma podem apresentar complicações mais importantes quando desenvolvem infecções respiratórias. Em crianças e idosos asmáticos, as vacinas ajudam a reduzir exacerbações, internações e perda de função pulmonar, contribuindo para a estabilidade da doença. Por isso, a imunização deve ser considerada parte do manejo contínuo da asma”, detalha a Dra. Caroline.
Ela complementa lembrando que o calendário infantil foi desenhado estrategicamente para cobrir os momentos de maior vulnerabilidade biológica da criança: “Como o sistema imunológico ainda está em desenvolvimento nos primeiros anos de vida, vacinar no momento correto garante proteção precoce. Adiar as doses apenas prolonga o período de vulnerabilidade da criança e aumenta o risco de complicações evitáveis.”
Avanço Tecnológico e Inclusão de Pacientes Imunodeficientes
As inovações da medicina diagnóstica e laboratorial também trouxeram respostas promissoras para pacientes com condições mais complexas, como os erros inatos da imunidade (imunodeficiências). A transição de tecnologias antigas para plataformas modernas de engenharia molecular abriu portas para uma proteção muito mais inclusiva.
“Os avanços da imunologia e das novas tecnologias vacinais, como RNA mensageiro e subunidades proteicas, tornaram a vacinação mais segura para pacientes com imunodeficiências”, comemora a pesquisadora. “Como essas vacinas não utilizam microrganismos vivos, elas apresentam menor risco e permitem uma proteção mais eficaz e personalizada para crianças e idosos com alterações do sistema imunológico. Logo, não devemos deixar de vacinar uma criança por medo.”
A orientação final da especialista reforça que as decisões familiares de saúde devem sempre buscar amparo técnico e científico, ignorando boatos sem respaldo técnico. Em casos de dúvidas específicas ou suspeitas reais de alergia a algum componente vacinal, o parecer individualizado de um alergista e imunologista é o caminho seguro para desenhar a melhor estratégia de imunização, garantindo que ninguém fique desprotegido.
Sobre a Doutora Caroline Pássaro:
A Dra. Caroline Pássaro é médica Alergista e Imunologista formada pelo Serviço de Imunologia do Hospital Universitário da UFRJ, titulada pela AMB e ASBAI. Possui Doutorado (PhD) em Ciências da Saúde na área de Fisiologia Respiratória pelo Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho (UFRJ) e também é médica Anestesiologista titulada pela AMB/SBA.
Atualmente faz parte do corpo clínico do Instituto Gilberto Kocerginsky.
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