Especialista em dor alerta que, para pessoas com fibromialgia, intensidade, carga e recuperação precisam ser individualizadas para evitar piora dos sintomas.
Para quem convive com fibromialgia, começar ou retomar a musculação pode parecer uma contradição. Afinal, se o exercício é recomendado para ajudar no controle da dor, por que algumas pessoas sentem uma piora significativa dos sintomas depois do treino?
A resposta está na forma como o organismo de quem tem fibromialgia processa a dor e responde ao esforço físico. Segundo o Dr. Carlos Gropen, especialista em dor, o exercício pode produzir benefícios importantes no médio e longo prazo, mas a dose precisa ser cuidadosamente ajustada.
“Em uma pessoa sem fibromialgia, o exercício costuma ativar mecanismos naturais de controle da dor, elevando o limiar doloroso durante e após a atividade. Na fibromialgia, esse mecanismo pode funcionar de maneira diferente. Por isso, é possível que o exercício ajude no longo prazo, mas provoque uma piora da dor nas horas seguintes”, explica o especialista.
O fenômeno ajuda a entender por que alguns pacientes abandonam a atividade física mesmo sabendo de seus benefícios. Um treino considerado adequado para uma pessoa sedentária, por exemplo, pode representar uma carga excessiva para alguém com fibromialgia.
“Existe uma diferença importante entre um programa que é correto e um programa que é correto para aquele paciente. Na fibromialgia, a janela de esforço útil pode ser menor e mais estreita. A carga, o número de repetições, a frequência dos treinos e o tempo de descanso precisam ser definidos a partir da resposta individual de cada pessoa”, afirma o Dr. Carlos Greon.
A dor do dia seguinte é uma importante referência
Um dos principais cuidados está em não avaliar a intensidade adequada do exercício apenas pela sensação durante o treino. Para pacientes com fibromialgia, a resposta nas horas seguintes pode ser uma informação ainda mais importante.
“Uma sessão pode parecer leve no momento e, ainda assim, ser excessiva se provocar uma piora importante no dia seguinte. Por isso, uma das principais referências para ajustar o treino é observar o custo que aquela atividade teve para o paciente nas horas posteriores”, orienta.
Nesse contexto, a musculação apresenta uma vantagem: permite um controle bastante preciso da carga. É possível reduzir o peso, diminuir o número de séries, modificar um exercício, aumentar o intervalo de descanso ou alterar a frequência dos treinos.
“É justamente a possibilidade de dosar a carga em pequenos passos que faz da musculação uma ferramenta interessante. O exercício não precisa ser abandonado porque uma determinada carga ou movimento provocou sintomas. É possível ajustar a dose até encontrar um nível que o organismo consiga tolerar”, destaca o médico.
Nem toda dor deve ser atribuída à fibromialgia
Outro ponto fundamental é diferenciar a dor característica da fibromialgia de sinais que podem indicar outro problema.
Dor aguda e localizada em uma articulação, tontura, falta de ar desproporcional ao esforço ou dor no peito são sinais que exigem a interrupção imediata da atividade e avaliação adequada.
“A dor difusa relacionada à fibromialgia não deve ser confundida com uma dor nova, localizada ou associada a outros sinais de alerta. Essa diferenciação é fundamental para que o paciente não atribua qualquer sintoma à doença e continue treinando diante de uma situação que precisa de investigação”, ressalta o Dr. Carlos Gropen.
Exercício precisa ser prescrito de forma individualizada
Para o especialista, um dos principais desafios no tratamento da dor crônica é transformar a recomendação genérica de “fazer exercício” em uma orientação realmente individualizada.
“Durante muito tempo, escrevemos nos prontuários apenas ‘orientado exercício físico’. Mas ninguém aceitaria uma prescrição médica dizendo apenas ‘orientada medicação’, sem informar qual medicamento, qual dose e como ele deve ser utilizado. Com o exercício deveria ser igual”, avalia.
Quando bem orientada, a musculação pode contribuir para o ganho de força e massa muscular e, principalmente, para a recuperação da confiança do paciente em realizar atividades cotidianas.
“O que a dor crônica costuma tirar primeiro não é apenas força. É a confiança. A pessoa começa a pensar duas vezes antes de subir uma escada, caminhar ou fazer uma atividade porque já está calculando quanto aquilo vai custar no dia seguinte. Quando conseguimos encontrar uma dose de exercício que o corpo tolera, o paciente começa a recuperar essa confiança”, afirma.
Para o Dr. Carlos Gropen, o objetivo não é fazer o paciente treinar cada vez mais, mas encontrar a dose de exercício que produza benefícios sem provocar uma piora desproporcional dos sintomas.
“Na fibromialgia, progressão não significa simplesmente colocar mais peso toda semana. Significa entender a resposta daquele corpo e avançar quando ele estiver preparado. O objetivo final é que a pessoa deixe de ter medo do movimento”, conclui.