Pesquisa inédita da UFPR quer substituir o abate por produção em laboratório, mira investimento de US$ 2 milhões e pode transformar um mercado bilionário da indústria da beleza
Enquanto a indústria da beleza na China movimenta centenas de milhões de dólares por ano, um animal comum no interior do Brasil vem pagando essa conta com a própria pele literalmente.
O colágeno extraído de jumentos brasileiros é hoje matéria-prima essencial para a produção do ejiao, uma gelatina usada pela medicina tradicional chinesa e também por cosméticos. O problema: a demanda crescente levou ao abate em massa dos animais e colocou a espécie à beira da extinção no país.
Agora, uma pesquisa da Universidade Federal do Paraná (UFPR) promete virar esse jogo com uma solução que parece coisa de ficção científica: produzir colágeno de jumento sem usar os animais.
Colágeno sem morte: como funciona a tecnologia
O projeto, desenvolvido pelo Laboratório de Zootecnia Celular da UFPR, usa fermentação de precisão, a mesma lógica empregada na produção de insulina e de proteínas alternativas.
Na prática, os cientistas inserem o DNA do jumento responsável pela produção do colágeno em micro-organismos, como leveduras, que passam a funcionar como pequenas biofábricas.
“É um processo semelhante ao da fabricação de cerveja, só que em vez de álcool, o resultado é colágeno animal verdadeiro”, explica a pesquisadora Carla Molento, coordenadora do laboratório.
A tecnologia dispensa completamente o abate e pode atender a um mercado gigantesco: só o setor de ejiao é avaliado em US$ 1,9 bilhão, com projeção de chegar a US$ 3,8 bilhões até 2032.
Jumentos sumindo do mapa
Segundo dados da FAO, IBGE e Agrostat, o Brasil tinha centenas de milhares de jumentos nos anos 1990. Hoje, restam cerca de 78 mil. A queda é de 94% em menos de 30 anos. “De cada 100 jumentos que existiam há três décadas, hoje restam apenas seis”, afirma Patricia Tatemoto, pesquisadora da área de saúde animal.
O abate acontece de forma extrativista, concentrado principalmente em dois frigoríficos no interior da Bahia, e beneficia pouco a economia local.
A corrida por US$ 2 milhões
Apesar dos avanços, o projeto está travado em um ponto decisivo: dinheiro. Para sair do laboratório e testar a produção em biorreatores de 10 e 50 litros, a equipe precisa de um investimento de US$ 2 milhões.
Sem isso, a pesquisa não consegue provar que a tecnologia funciona em escala industrial, condição básica para atrair empresas e levar o colágeno “sem morte” ao mercado.“No laboratório conseguimos produzir miligramas. Para a indústria, precisamos de gramas, quilos, toneladas”, resume Molento.
A meta é apresentar, até dezembro de 2026, o processo completo de produção em larga escala.
O futuro do colágeno e dos jumentos
Se o investimento sair, o Brasil pode se tornar pioneiro mundial na produção de colágeno de jumento em laboratório e transformar um problema ético e ambiental em um novo polo de biotecnologia.
Caso contrário, o país pode assistir ao desaparecimento silencioso de um animal que fez parte da sua história rural por séculos para alimentar um mercado bilionário do outro lado do mundo.