O número de adultos com obesidade no Brasil cresceu 118% entre 2006 e 2024, segundo dados divulgados pela CNN. Apesar do avanço da condição, uma ideia continua presente no imaginário popular: a de que emagrecer depende apenas de disciplina, controle alimentar e prática de exercícios.
Para a nutricionista e psicóloga Flávia Lucena, essa interpretação ignora a complexidade de uma doença que envolve fatores biológicos, emocionais, comportamentais, sociais e ambientais.
“Quando atribuímos a obesidade exclusivamente à falta de esforço individual, deixamos de enxergar tudo o que influencia o peso corporal ao longo da vida. O problema é que essa visão gera culpa, mas não necessariamente soluções”, afirma.
A especialista explica que o peso é resultado de uma combinação de fatores que vão muito além da alimentação. Aspectos como genética, alterações hormonais, privação de sono, estresse crônico, saúde mental, uso de medicamentos, histórico familiar e condições de vida também podem influenciar o desenvolvimento da obesidade.
“Quando alguém chega ao consultório, eu não estou olhando apenas para o peso. Estou tentando entender o que acontece naquele organismo e naquela história de vida para que o corpo esteja respondendo dessa forma”, afirma.
Segundo Flávia, um dos efeitos mais nocivos dos discursos simplistas é a associação entre peso corporal e valor pessoal. “Muitas pessoas passam a acreditar que o próprio corpo é uma prova de fracasso ou falta de disciplina. Esse sentimento costuma vir acompanhado de vergonha, autocrítica e sofrimento emocional, o que pode tornar a relação com a alimentação ainda mais difícil.”
Ela ressalta que duas pessoas com o mesmo diagnóstico podem apresentar causas e necessidades completamente diferentes. “Uma pessoa pode estar enfrentando resistência à insulina, outra alterações hormonais, outra um quadro de ansiedade ou anos de tentativas frustradas de emagrecimento. Por isso, não existe uma única explicação nem uma única solução.”
A nutricionista observa que a alimentação também cumpre funções emocionais, afetivas e culturais que frequentemente são ignoradas quando o assunto se resume à perda de peso.
“A comida não atende apenas necessidades biológicas. Ela está presente em momentos de celebração, pertencimento, memória, prazer e conforto emocional. Quando desconsideramos esses aspectos, deixamos de compreender parte importante do comportamento alimentar.”
Para Flávia, o nutrir com acolhimento se torna mais efetivo quando substitui o julgamento pela compreensão. “Acolher não significa romantizar a obesidade ou abandonar objetivos relacionados à saúde. Significa reconhecer que mudanças sustentáveis acontecem quando a pessoa encontra apoio, recursos emocionais e estratégias compatíveis com sua realidade.”
Em um cenário em que o debate sobre emagrecimento ainda costuma ser marcado por fórmulas rápidas e respostas prontas, a especialista propõe uma reflexão:
“A pergunta não é por que alguém não consegue emagrecer. Talvez seja quantas vezes essa pessoa tentou resolver um problema complexo recebendo apenas respostas simples.”