Existem pensamentos que parecem
adquirir vida própria. Eles aparecem quando menos esperamos, retornam durante o
silêncio da noite, interrompem uma atividade, surgem no meio de uma conversa e,
principalmente, insistem em permanecer mesmo quando fazemos de tudo para
afastá-los. Pode ser uma lembrança de uma relação que terminou, uma culpa
antiga, uma rejeição, uma situação constrangedora ou simplesmente aquela
sensação persistente de que não somos bons o suficiente. O curioso é que,
embora saibamos que determinados pensamentos nos fazem sofrer, continuamos
voltando a eles.
“É como se uma parte da
nossa mente permanecesse presa justamente àquilo que conscientemente
gostaríamos de deixar para trás.”.
Na minha experiência clínica como
psicanalista, encontro frequentemente pessoas cansadas não apenas pelo que
viveram, mas pela maneira como continuam revivendo mentalmente aquilo que já
aconteceu. Algumas chegam ao consultório dizendo que sabem racionalmente que
determinada situação terminou, mas não conseguem parar de pensar nela.
Outras compreendem que
determinado relacionamento lhes fez mal, mas continuam reconstruindo
mentalmente conversas, procurando explicações e imaginando o que poderiam ter
feito diferente. Também é comum encontrar pessoas que transformaram a
autocrítica em uma espécie de companhia permanente: qualquer erro se
transforma em prova de incapacidade, qualquer rejeição confirma a sensação de
não serem suficientemente boas e qualquer dificuldade passa a ser interpretada
como evidência de que alguma coisa está errada com elas.
Esse fenômeno pode ser
compreendido por diferentes caminhos dentro da psicologia. A psicanálise,
especialmente a partir das contribuições de Sigmund Freud, acrescenta uma
perspectiva particularmente interessante: nem tudo aquilo que pensamos ou
repetimos está sob o domínio da nossa vontade consciente.
Freud e aquilo que continua
retornando.
Uma das grandes contribuições de
Freud foi justamente mostrar que a mente humana é atravessada pelo
inconsciente. Isso significa que podemos desejar conscientemente esquecer
uma experiência e, ao mesmo tempo, permanecer emocionalmente ligados a ela.
Podemos compreender racionalmente que uma determinada situação pertence ao
passado e ainda assim reagir a acontecimentos presentes como se aquela
experiência continuasse acontecendo.
Para Freud, aquilo que não
consegue ser suficientemente elaborado pode encontrar diferentes formas de
retorno. Nem sempre volta como uma lembrança clara. Pode aparecer em
sentimentos, sintomas, escolhas, relacionamentos e repetições. É nesse contexto
que a noção de compulsão à repetição se torna importante para
compreender por que determinadas experiências parecem continuar sendo
reproduzidas, mesmo quando provocam sofrimento.
Essa ideia permanece
interessante quando observamos determinados pensamentos repetitivos.
Uma pessoa pode passar muito
tempo tentando compreender por que foi abandonada, por que determinado
relacionamento fracassou ou por que alguém a tratou de determinada maneira.
Inicialmente, pensar sobre aquilo pode ser uma tentativa legítima de encontrar
sentido. Entretanto, chega um momento em que a reflexão deixa de produzir
compreensão e começa apenas a reproduzir sofrimento.
A pessoa pensa, retorna ao mesmo
ponto, sofre, procura novamente uma explicação e volta a pensar. O pensamento
passa a funcionar como um circuito fechado.
Quando pensar se transforma em
ruminação?
A psicologia contemporânea
utiliza o conceito de ruminação para descrever justamente esse padrão de
pensamentos repetitivos e negativos. A APA (American Psychological Association)
relaciona a ruminação a pensamentos persistentes sobre emoções, problemas e
acontecimentos negativos, destacando sua associação com depressão e outros
problemas de saúde mental. Pesquisas sobre depressão também apontam que ciclos
ruminativos podem intensificar e prolongar estados de humor deprimido.
A diferença entre reflexão e
ruminação é importante.
Refletir pode nos ajudar a
compreender uma experiência, aprender com ela e encontrar uma maneira de seguir
adiante. Ruminar, por outro lado, pode produzir a sensação de que estamos
tentando resolver alguma coisa enquanto permanecemos emocionalmente presos ao
mesmo acontecimento.
Isso aparece com frequência
depois de uma separação. A pessoa revisita mensagens, lembra de conversas,
procura sinais que talvez não tenha percebido e tenta encontrar exatamente o
momento em que tudo começou a dar errado. Depois de algum tempo, porém, já não
está necessariamente procurando uma solução. Está apenas retornando à dor.
A imprensa também vem chamando
atenção para comportamentos contemporâneos que alimentam esse funcionamento.
Uma reportagem recente da CNN Brasil, por exemplo, abordou o doomscrolling,
hábito de consumir repetidamente notícias negativas mesmo quando esse consumo
já não acrescenta informação útil. A matéria relaciona esse comportamento a um
ciclo de ansiedade, estresse e dificuldade de interromper a exposição a
conteúdos que provocam desconforto.
Embora doomscrolling e
ruminação não sejam a mesma coisa, existe uma semelhança importante: em ambos
os casos, a pessoa pode permanecer presa a um circuito repetitivo que parece
prometer algum tipo de controle ou compreensão, mas que acaba mantendo a mente
concentrada no negativo.
Por que a mente insiste
naquilo que machuca?
Talvez seja tentador imaginar que
pensamentos negativos persistem simplesmente porque somos pessimistas ou porque
não conseguimos “pensar positivo”. A realidade psíquica, entretanto, é muito
mais complexa.
Em determinadas situações,
permanecer pensando pode representar uma tentativa de recuperar controle.
Quando algo doloroso acontece e não conseguimos compreender completamente por
que aconteceu, a mente tenta reconstruir a história.
“Se encontrarmos a
explicação correta, talvez possamos evitar que aquilo volte a acontecer. Se
descobrirmos onde erramos, talvez consigamos impedir uma nova perda.”.
É uma tentativa humana de
transformar o imprevisível em algo compreensível.
O problema é que nem tudo possui
uma explicação capaz de produzir alívio. Algumas perdas não acontecem porque
alguém necessariamente errou. Algumas pessoas vão embora apesar do nosso
esforço. Algumas relações terminam mesmo quando ainda existe amor. Algumas
experiências são injustas e não oferecem uma resposta satisfatória.
Nesses momentos, a insistência do
pensamento pode se tornar uma maneira de não aceitar a dimensão de impotência
presente em determinadas experiências.
Na perspectiva psicanalítica, isso pode ganhar ainda
outra dimensão. Um pensamento repetitivo pode estar ligado a conflitos, perdas
ou sentimentos que ainda não encontraram uma forma adequada de elaboração. O
pensamento não precisa ser interpretado apenas como um problema a ser
eliminado; ele pode também ser compreendido como uma manifestação de algo que
continua ativo na vida psíquica.
A voz interna que nunca está
satisfeita.
Outro aspecto muito presente na
clínica é a autocrítica. Algumas pessoas convivem com uma voz interna
extremamente exigente, que transforma qualquer falha em condenação. Não basta
ter cometido um erro; é preciso concluir que se é incompetente. Não basta uma
rejeição; é preciso acreditar que ninguém será capaz de amar. Não basta
atravessar uma fase difícil; é preciso interpretar a dificuldade como prova de
fracasso pessoal.
Freud oferece elementos
importantes para compreender esse tipo de sofrimento ao discutir a melancolia e
a maneira como a agressividade relacionada à perda podem voltar-se contra o
próprio eu. Em determinadas condições, aquilo que deveria ser elaborado como
uma experiência de perda passa a ser transformado em acusações contra si mesmo.
Na prática, essa dinâmica pode
aparecer de maneira bastante dolorosa. A pessoa não apenas sofre; ela também se
acusa por sofrer. Acredita que deveria ser mais forte, superar mais
rapidamente, controlar melhor suas emoções e não precisar de ajuda.
É como se existisse dentro dela
um juiz permanente.
Esse funcionamento também
encontra correspondência em pesquisas contemporâneas. A APA destaca que pessoas
com depressão podem apresentar padrões persistentes de processamento de
informações negativas e dificuldade maior em direcionar a atenção para aspectos
positivos ou neutros. Estudos divulgados pela própria organização também
indicam que pessoas que já passaram por episódios depressivos podem continuar
apresentando maior atenção a informações negativas mesmo após a remissão dos
sintomas.
Isso ajuda a mostrar que
não se trata simplesmente de escolher voluntariamente ser negativo.
O pensamento não é
necessariamente a realidade.
Um dos problemas mais dolorosos
desse processo ocorre quando a pessoa deixa de perceber seus pensamentos
como pensamentos e começa a tratá-los como verdades absolutas.
“Eu fracassei” transforma-se em
“eu sou um fracasso”.
“Essa pessoa me rejeitou”
transforma-se em “ninguém gosta de mim”.
“Estou passando por uma fase
difícil” transforma-se em “minha vida é um desastre”.
Quando isso acontece, uma
experiência específica passa a definir toda a identidade.
É justamente nesse ponto que o
trabalho clínico pode ser importante. Em vez de tentar convencer a pessoa de
que ela deve simplesmente pensar de maneira positiva, é possível ajudá-la a
compreender como aquela forma de pensar foi construída e por que determinadas
situações atuais despertam sentimentos tão intensos.
Na psicanálise, a palavra tem um
papel fundamental nesse processo. Ao falar sobre aquilo que se repete, o
sujeito pode começar a perceber relações que antes pareciam desconectadas. Uma
crítica atual pode remeter a uma experiência muito mais antiga. Um medo de
abandono pode estar relacionado a uma história de perdas. Uma exigência
exagerada consigo mesmo pode ter raízes em uma infância marcada pela
necessidade de corresponder às expectativas dos outros.
Não se trata de procurar
culpados no passado, mas de compreender a história psíquica que ajudou a
construir a maneira como a pessoa se relaciona consigo mesma.
Elaborar não significa
esquecer.
Existe uma expectativa muito
comum de que superar significa deixar de lembrar. Como se uma pessoa que ainda
pensa em determinada experiência estivesse necessariamente presa ao passado.
Não acredito que seja assim.
Elaborar uma experiência não
significa apagá-la. Significa conseguir lembrar sem ser novamente destruído
pela lembrança. Significa poder reconhecer uma perda sem permanecer
permanentemente vivendo dentro dela. Significa compreender um erro sem
transformar esse erro em identidade.
O passado continua existindo, mas
deixa de ocupar o mesmo lugar.
É justamente por isso que, na
clínica, considero mais produtivo trabalhar com a compreensão do sofrimento do
que simplesmente estimular a tentativa de expulsar pensamentos desagradáveis.
Não podemos controlar completamente aquilo que surge em nossa mente, mas
podemos construir uma relação diferente com aquilo que surge.
A pessoa pode continuar lembrando
sem continuar repetindo.
Pode reconhecer a tristeza sem
transformar a tristeza em quem ela é.
Pode compreender que uma
experiência dolorosa fez parte de sua história sem permitir que ela determine
todo o seu futuro.
Quando o sofrimento precisa de
atenção?
Também é importante não
transformar qualquer pensamento triste em depressão. A tristeza, o
arrependimento, a preocupação e a saudade fazem parte da experiência humana. O
problema surge quando pensamentos negativos e repetitivos passam a ocupar
espaço excessivo, interferindo no sono, no trabalho, nos relacionamentos, no
prazer e na capacidade de viver o cotidiano.
Quando a pessoa percebe que não
consegue sair sozinha desse circuito, buscar ajuda profissional pode ser
importante. A APA ressalta que pensamentos repetitivos e perturbadores,
especialmente quando causam sofrimento ou interferem na vida, são motivos legítimos
para considerar psicoterapia.
Também é importante reconhecer
que depressão é uma condição de saúde mental que pode exigir tratamento
específico e, em determinadas situações, acompanhamento médico ou psiquiátrico.
A psicoterapia pode fazer parte desse cuidado, mas não deve ser apresentada
como substituta universal de outros tratamentos.
O que observo na prática
clínica.
Ao longo da minha experiência
clínica e da minha produção sobre saúde mental, uma questão aparece de maneiras
diferentes, mas com uma característica semelhante: muitas pessoas não sofrem
apenas pelo que aconteceu. Sofrem também porque acreditam que já deveriam ter
conseguido esquecer.
Essa cobrança acaba criando uma
segunda camada de sofrimento.
A pessoa perdeu alguém e se culpa
porque ainda sente saudade. Terminou um relacionamento e acredita que já
deveria estar bem. Cometeu um erro e não consegue se perdoar. Viveu uma
situação difícil e entende que continuar afetado por ela significa fraqueza.
Entretanto, o tempo
psicológico não funciona exatamente como o calendário.
Uma experiência pode ter
acontecido há muitos anos e continuar emocionalmente ativa porque ainda não
encontrou um lugar adequado dentro da história daquela pessoa. O trabalho
clínico, nesse sentido, não consiste em apagar o passado, mas em ajudar o sujeito
a compreender por que aquele passado continua tão presente.
Talvez seja essa uma das maiores
contribuições da psicanálise para a compreensão do sofrimento emocional: aquilo
que se repete pode não estar simplesmente pedindo para ser eliminado. Pode
estar pedindo para ser compreendido.
Nossa mente não se apega
necessariamente aos pensamentos que nos deprimem porque deseja sofrer. Muitas
vezes, ela permanece ligada a eles porque existe uma experiência, uma perda, um
conflito ou uma forma de relação consigo mesmo que ainda precisa ser elaborada.
E talvez a liberdade não esteja
em nunca mais ter um pensamento triste.
Talvez esteja em poder pensar
sobre aquilo que nos machucou sem continuar sendo dominado pela mesma dor.