Enquanto custo supera R$ 6,50, produtores recebem cerca de R$ 4 e enfrentam desequilíbrio na cadeia produtiva
A cadeia produtiva da borracha natural no Brasil enfrenta um cenário preocupante, marcado por desequilíbrios econômicos, falta de contratos e forte concorrência internacional. O alerta é do presidente da Câmara Setorial da Borracha do Ministério da Agricultura, Antônio Carlos Carvalho Gerin, que classifica a situação como uma “crise silenciosa” que pode comprometer não apenas o setor, mas também áreas essenciais da economia nacional.
Para ilustrar a importância do insumo, Gerin propõe um exercício direto: imaginar o país sem borracha. “Gostaria que vocês pensassem no Brasil sem a borracha hoje. O que acontece imediatamente com o país? Nós vamos voltar para a idade média em 24 horas”, afirma. Segundo ele, a ausência do material afetaria desde o transporte até a saúde pública, inviabilizando pneus, equipamentos hospitalares e até sistemas básicos de funcionamento urbano.
A borracha está presente em praticamente todos os aspectos do cotidiano, desde componentes industriais até itens simples dentro de casa. “A sua torneira não fecharia se não tivesse aquele anelzinho de borracha. Então, ia vazar água o dia inteiro. Enfim, a borracha é fundamental para o desenvolvimento de uma nação”, reforça.
Apesar da relevância estratégica, o início da cadeia, representado pelo produtor rural, é o elo mais vulnerável. O cultivo da seringueira exige investimento de longo prazo, cerca de dez anos até o início da produção, o que torna o risco ainda maior. “O produtor faz um investimento por 10 anos. Depois que começa a produzir, ele entra numa cadeia onde é o elo mais fraco”, explica Gerin.
A estrutura do setor é dividida em três etapas principais: produção no campo, beneficiamento nas usinas e industrialização para consumo final. No entanto, a ausência de contratos formais entre esses elos cria um ambiente de instabilidade. “Eu não tenho contrato de compra e venda do campo com a usina. Então, compro se eu quiser, pago o preço que eu quiser e o produtor simplesmente aceita”, critica.
Esse desequilíbrio se reflete diretamente nos preços. Atualmente, segundo Gerin, o custo de produção gira em torno de R$ 6,50 por quilo, enquanto o produtor recebe cerca de R$ 4,00. “Ou é pouco ou é nada. Se eu não vender, eu perco tudo”, afirma, ao destacar que a borracha não colhida não se acumula para o dia seguinte, tornando a venda obrigatória mesmo com prejuízo.
Outro fator crítico é a concorrência internacional. Países como Malásia, Indonésia e Vietnã produzem com custos significativamente menores, devido a legislações ambientais e trabalhistas menos rigorosas, além de políticas de subsídio. “Competir com essa diferença de custos é praticamente impossível”, diz o presidente.
Além disso, a importação de borracha segue protegida por contratos internacionais, o que mantém o fluxo constante do produto estrangeiro no país. “Se eu não limito a importação, ela continua chegando, independente do mercado interno. Já na produção nacional, não acontece absolutamente nada pela ausência de contrato”, pontua.
Diante desse cenário, Gerin defende a retomada de políticas públicas de incentivo, como a subvenção que existiu até 2004. “Existe um decreto que funcionou muito bem até 2004. Quando ele venceu, nada foi colocado no lugar e aí a crise começou”, relembra.
O impacto vai além da economia. A seringueira também desempenha papel ambiental relevante, com alta capacidade de captura de carbono, além de contribuir socialmente ao gerar emprego e fixar o trabalhador no campo. Ainda assim, plantações vêm sendo erradicadas por falta de viabilidade econômica. “A seringueira é fantástica ambientalmente, mas está sendo arrancada”, alerta.
A falta de rentabilidade também tem provocado êxodo de mão de obra. Trabalhadores que deixaram o setor dificilmente retornam, agravando ainda mais a situação produtiva. “Quem saiu foi para a cidade e não volta mais. Hoje, quem insiste em produzir já enfrenta falta de mão de obra”, explica.
Para o presidente da Câmara Setorial, a situação exige uma resposta estratégica do país, inclusive sob a ótica de segurança nacional. “O Brasil ficar dependente de importação de borracha é muito sério. A gente já vê isso com diesel e fertilizantes”, afirma.
Ele também critica a falta de investimentos na modernização da indústria nacional. “Eu nunca vi uma proposta de investimento para modernizar as fábricas. Sem isso, é difícil competir com a eficiência de outros países”, completa.
Ao final, Gerin reforça que a continuidade da atividade está ameaçada. “Ninguém é obrigado a produzir com prejuízo. Se continuar assim, nós vamos deixar a atividade”, conclui, apontando para a necessidade urgente de reequilibrar a cadeia e garantir a sustentabilidade de um insumo essencial para o desenvolvimento do país.