Quando uma multa virou inovação: a tecnologia brasileira que quer colocar o ruído no radar das cidades inteligentes

Quando uma multa virou inovação: a tecnologia brasileira que quer colocar o ruído no radar das cidades inteligentes

Samantha Di Khali
4 min de leitura 78
Imprensa

O controle do ruído urbano se tornou um dos problemas mais complexos das cidades modernas. Multas que ultrapassam centenas de milhares de reais, processos judiciais, embargos e conflitos
com a vizinhança tornaram-se comuns para igrejas, bares, escolas, indústrias e casas de eventos.

Foi justamente a partir de um desses episódios que nasceu uma tecnologia brasileira que hoje começa a chamar atenção de municípios, investidores e empreendedores:
o Sentinela One®, um sistema inteligente de monitoramento acústico externo.

Uma startup que nasceu de um problema real

Durante uma reunião administrativa, o Pastor Presidente de uma igreja com 10 mil membros da capital de Santa Catarina, relatou um episódio que vinha se repetindo. Apesar de estar
atendendo a comunidade no mesmo endereço quase 90 anos, a igreja vinha sendo alvo de denúncias por perturbação do sossego, o que levou a multas e até convocações à delegacia.
O caso expôs uma dificuldade comum a muitos empreendimentos urbanos: quando surge uma denúncia, quase nunca existem dados técnicos confiáveis para identificar o que realmente está acontecendo.

Entre os presentes naquela reunião estava Wellington Oliveira que é engenheiro de software e atua no mercado internacional de tecnologia. A conversa acabou despertando uma pergunta
simples, mas poderosa: se as cidades de primeiro mundo já monitoram indicadores como temperatura, poluição do ar e radiação ultravioleta, por que não existe um sistema capaz de monitorar
o ruído urbano em tempo real?

A ideia deu origem ao conceito do Sentinela. Em poucos meses, o primeiro protótipo já estava em funcionamento. Diferente das medições acústicas tradicionais
— que normalmente ocorrem dentro do imóvel e em momentos pontuais — a nova solução propunha algo diferente: medir o som do lado de fora, exatamente onde o impacto acontece, ou seja, na propagação
sonora para a vizinhança.

O sistema utiliza sensores acústicos homologados pelo INMETRO e instalados externamente ao redor da edificação, permitindo monitorar em 360 graus um imóvel. Os dados
são transmitidos para uma central que apresenta as medições em tempo real. Um painel simples utiliza cores semelhantes a um semáforo para indicar a situação sonora do ambiente, permitindo
que gestores identifiquem rapidamente quando o nível de ruído se aproxima ou ultrapassa os limites permitidos.

Quando o sistema foi instalado na própria igreja que havia inspirado o projeto, o resultado trouxe uma surpresa. O maior ruído externo não vinha da música nem dos
equipamentos de som utilizados nos cultos. A origem estava nas conversas de fiéis que permaneciam na calçada após o término das reuniões. Com esse diagnóstico preciso, bastaram pequenas
mudanças de organização para resolver o problema e encerrar um ciclo de multas e conflitos com a vizinhança.

O episódio revelou algo importante: muitas vezes o problema não é o volume do som em si, mas a falta de dados que permitam identificar onde ele realmente se origina.

Proteção intelectual e expansão internacional

Com o avanço da tecnologia, o projeto evoluiu para uma plataforma mais ampla de gestão acústica. O Sentinela One® foi patenteado no Brasil junto ao Instituto Nacional
da Propriedade Industrial (INPI) e teve sua proteção expandida para outros mercados, com registros em 37 países. Hoje o sistema opera como uma solução completa de monitoramento multipontos
de ruído, capaz de gerar mapas georreferenciados de calor sonoro e fornecer dados contínuos para análise urbana.

A proposta dialoga diretamente com o conceito de Cidades Inteligentes. Metrópoles como Nova York, Tokio, Londres e Madri já monitoram em tempo real indicadores ambientais como
poluição atmosférica, temperatura e radiação solar. O ruído, entretanto, ainda é um dos indicadores urbanos menos monitorados de forma estruturada, apesar de ser uma das principais
fontes de conflito entre moradores, empresas e poder público.

Ao integrar sensores distribuídos, análise de dados e comunicação digital, o Sentinela permite que municípios monitorem o comportamento acústico de
seus territórios em tempo real. A plataforma gera relatórios técnicos auditáveis e compartilha informações com autoridades e equipes de fiscalização. Integrado a SMS
e WhatsApp Business, o sistema também envia alertas automáticos e facilita respostas rápidas em casos de denúncias ou operações de fiscalização.

De um problema local a uma oportunidade global

Santa Catarina, reconhecida como um dos principais polos de inovação do país, tornou-se o primeiro campo de expansão da tecnologia. Diversos municípios do
estado iniciaram a implantação do sistema como ferramenta de monitoramento urbano e prevenção de conflitos sonoros. A expansão para outros mercados já começou, com projetos
sendo estruturados no Rio Grande do Sul e em Minas Gerais.

O que começou como uma tentativa de resolver um problema local acabou evoluindo para uma tecnologia com potencial de aplicação global. Em um mundo cada vez mais urbano
e sensível à qualidade de vida, o ruído deixou de ser apenas um incômodo cotidiano e passou a ser tratado como um indicador relevante de gestão urbana.

E foi a partir de uma multa aplicada a uma igreja em Florianópolis que surgiu uma das primeiras iniciativas brasileiras a transformar esse problema em dados — e dados em oportunidade
de inovação.

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