Quinze anos após a redescoberta do Cais do Valongo, a Pequena África volta ao centro do debate público não apenas como símbolo da diáspora africana, mas como território estratégico de desenvolvimento. Identificado em 2011 durante as obras do Porto Maravilha e reconhecido como Patrimônio Mundial pela UNESCO em 2017, o sítio arqueológico tornou-se referência internacional sobre memória da escravidão nas Américas. Hoje, integra o Circuito Histórico e Arqueológico da Celebração da Herança Africana e é utilizado por escolas públicas e privadas como instrumento pedagógico.
Ao redor desse marco histórico vivem e trabalham cerca de 27 mil pessoas, segundo o IBGE (Censo 2022). O dado revela a dimensão contemporânea da Pequena África, que não se trata apenas de um sítio arqueológico, mas de um território ativo, com dinâmica econômica, cultural e social própria.
É nesse contexto que o Viva Pequena África (IVPA) inicia, em 2026, uma etapa de consolidação com foco em governança compartilhada e articulação com políticas públicas. A iniciativa reúne CEAP, Feira Preta e Diáspora.Black em um consórcio que propõe um modelo de desenvolvimento territorial negro estruturado a partir da cultura, da economia criativa e do fortalecimento institucional.
“Com a experiência de quem já viu e construiu muito, digo com convicção: a Pequena África não é apenas um portal para o passado. Ela precisa ser entendida como uma tecnologia social de desenvolvimento. Estamos falando de uma mudança de paradigma essencial”, afirma Gilberto Alves, diretor executivo do projeto.
A proposta parte do entendimento de que memória e desenvolvimento não são agendas opostas. O território, historicamente marcado pela chegada de africanos escravizados e pela formação de redes culturais e religiosas, passa a ser tratado como plataforma de inovação social. Turismo de base comunitária, formação técnica, fortalecimento de empreendedores locais e incidência institucional compõem a estratégia.
“Nosso propósito é impulsionar a região do ‘já foi’ para o ‘agora é’ e para o ‘será’. Queremos ativar o potencial de cada rua e consolidar um ecossistema em que patrimônio, inovação cultural e empreendedorismo caminhem juntos”, diz Gilberto.
O projeto também dialoga com debates globais sobre reparação histórica e reconhecimento de territórios negros como agentes de formulação de políticas públicas. A expectativa é estruturar um modelo replicável em outras regiões do país.
Ao transformar um espaço historicamente associado à dor em eixo de organização econômica e cultural, a iniciativa aposta na construção de autonomia local. Para os 27 mil moradores e trabalhadores da Pequena África, o desafio é consolidar o território como referência de memória viva e desenvolvimento sustentável.