Ao completar um ano no poder, o presidente Donald Trump consolidou a imigração como um dos eixos centrais de sua gestão. Desde janeiro de 2025, a Casa Branca implementou uma série de medidas que alteraram profundamente o acesso de estrangeiros aos Estados Unidos, tanto no combate à imigração ilegal quanto na reformulação dos caminhos legais de entrada e permanência no país.
Primeiros meses: discurso duro e impacto imediato
Logo no início do mandato, o governo intensificou deportações e operações de fiscalização contra imigrantes em situação irregular. As declarações frequentes do presidente sobre segurança nacional e proteção do contribuinte americano produziram reflexos imediatos fora dos EUA — especialmente no Brasil.
O advogado Vinícius Bicalho, licenciado nos Estados Unidos, professor de pós-graduação em direito migratório e mestre pela Universidade do Sul da Califórnia, relata que o efeito foi direto na procura por orientação jurídica: “De janeiro a dezembro, realizamos cerca de 8 mil atendimentos, o maior volume da história da consultoria. Bastava uma declaração de Trump para nossos telefones dispararem.”
Endurecimento técnico e financeiro
O governo passou a exigir critérios financeiros mais rígidos para a concessão de vistos, incluindo cauções elevadas para determinadas categorias de turismo e negócios. Paralelamente, os processos de análise tornaram-se mais amplos e técnicos: o histórico digital dos solicitantes passou a ser observado com maior profundidade, incluindo movimentações em redes sociais.
Embora esse tipo de verificação já existisse, especialistas apontam que agora ela se tornou mais sistemática, cruzando informações sobre comportamento, vínculos, declarações públicas e eventuais posicionamentos considerados incompatíveis com leis, valores institucionais ou interesses do governo americano. No segundo semestre, a criação do Gold Card, voltado a investidores de alto patrimônio, reforçou a estratégia de priorizar perfis vistos como economicamente vantajosos para o país, ao mesmo tempo em que taxas de vistos de trabalho foram elevadas, tornando o sistema ainda mais seletivo.
Janeiro de 2026: suspensão atinge brasileiros
Neste mês, o Departamento de Estado anunciou a suspensão temporária do processamento de vistos de imigrante para cidadãos de 75 países, entre eles o Brasil. A medida vale apenas para processos realizados fora do território americano, em consulados, e não afeta imigrantes que já estão nos EUA em fase de ajuste de status. Vistos de turismo, estudo e trabalho temporário seguem sendo emitidos, embora sob critérios de análise mais rigorosos.
Com o anúncio, a demanda por esclarecimentos voltou a crescer.“Com essa suspensão temporária, nossa equipe entrou novamente em regime de plantão. Ainda temos três anos de mandato pela frente, e esse cenário de mudanças constantes tende a continuar”, afirma Bicalho.
O fim do ‘jeitinho’ migratório
Para o especialista, o atual momento marca uma ruptura definitiva com práticas informais que durante anos alimentaram o imaginário do chamado “sonho americano”:
“Hoje, o velho jeitinho simplesmente não funciona mais. O sistema migratório está mais técnico, mais cruzado e mais fiscalizado. Migrar de forma adequada exige planejamento jurídico, análise individual do perfil do imigrante e acompanhamento profissional preciso. Quem tenta improvisar corre riscos reais de negativa, perda financeira ou impedimentos futuros.”
Apesar do endurecimento, Bicalho reforça que a imigração legal não está paralisada. Os pedidos continuam sendo recebidos, analisados e entrevistados. O que mudou foi o grau de exigência e previsibilidade do processo, que agora demanda preparação e estratégia desde a origem.
Um ano após retornar à Casa Branca, Trump deixa claro que os Estados Unidos continuam abertos a imigrantes — desde que eles se encaixem em critérios cada vez mais seletivos. Para brasileiros que desejam viver legalmente no país, o sonho americano não acabou, mas foi redesenhado: tornou-se mais caro, mais técnico e menos tolerante a erros.