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Em Águas da Prata, projeto mistura tecnologia, literatura, oralidade e natureza para reinventar a formação de leitores na infância e vem chamando atenção pelo modelo inovador.

Enquanto grande parte do país ainda enfrenta a ausência de bibliotecas e o afastamento das crianças da leitura, uma pequena cidade do interior paulista tem construído um caminho oposto e surpreendente. Em uma cidade com 7,4 mil habitantes, segundo o IBGE, a Biblioteca Traquinagem vem transformando a relação das crianças com os livros ao unir tecnologia, literatura e experiências sensoriais em um espaço cercado pela natureza.

Mais do que uma biblioteca convencional, o espaço funciona como uma verdadeira “biblioteca tech infantil”: além de livros físicos, o ambiente conta com kindles coloridos, tablets com animações e jogos literários, audiolivros, podcasts infantis e fones de ouvido espalhados pelo jardim para que as crianças possam escutar histórias enquanto exploram o espaço.

A proposta parte de uma pergunta urgente para os tempos atuais: como aproximar crianças da literatura em uma infância profundamente atravessada pela cultura digital?

Na Biblioteca Traquinagem, a resposta não é combater as telas, mas reinventar a forma como elas podem servir à imaginação, à escuta e ao encontro com os livros.

“A gente percebeu que não fazia sentido disputar atenção com as telas, mas criar novas formas de convivência entre tecnologia, literatura e afeto. Quando uma criança escuta um audiolivro deitada numa rede, cercada pela natureza, ela está vivendo uma experiência literária tão potente quanto a leitura tradicional e isso transforma completamente a relação dela com os livros”, afirma Leila Vilhena, coordenadora do projeto.

O resultado tem chamado atenção de famílias, educadores e mediadores de leitura. Crianças circulam entre redes, tapetes, balanços e pufes espalhados pelo jardim enquanto escolhem como desejam acessar as histórias: lendo, ouvindo, assistindo ou interagindo com conteúdos literários digitais. O som dos pássaros, as borboletas cruzando o espaço e a tranquilidade do ambiente ajudam a transformar a leitura em experiência sensorial e criativa.

Além do atendimento aberto ao público infantil do município, a biblioteca também recebe regularmente crianças de escolas da zona rural de Águas da Prata, ampliando o acesso à literatura e às experiências tecnológicas para estudantes que muitas vezes possuem contato limitado com equipamentos culturais e espaços de leitura.

A biblioteca leva o nome da Rádio Traquinagem, podcast infantil criado em 2021 que se tornou referência em mediação de leitura contemporânea. Finalista do Prêmio Jabuti, o projeto aposta em uma lógica rara no universo infantil: crianças não apenas consomem conteúdo, mas participam ativamente da criação.

Elas leem, escrevem, gravam, editam áudios e produzem episódios literários feitos “de criança para criança”, estimulando autonomia, criatividade e vínculo com a leitura desde cedo. Atualmente, a Rádio Traquinagem conta com apoio da Prefeitura Municipal de Águas da Prata e patrocínio da Neoenergia.

“Quando a criança entende que também pode criar histórias, gravar sua voz, contar o que pensa e participar ativamente da produção cultural, ela passa a enxergar a literatura como um espaço de pertencimento. Esse projeto nasce muito desse desejo: fazer com que as crianças sintam que a leitura também é delas”, completa Leila Vilhena.

O impacto do projeto também já começa a ser percebido dentro das escolas. Para o professor Lucas Ailton da Cruz Crivelari, a experiência vivida pelos alunos através do projeto “Guardiões da Floresta Sonora” ultrapassa o incentivo à leitura tradicional.

“Participar do projeto da Rádio Traquinagem junto com os meus alunos foi uma experiência extremamente significativa e marcante para mim como professor. Ao longo das atividades, pude perceber o quanto o projeto despertou nas crianças o interesse pela literatura, pela escuta, pela imaginação e também pela preservação ambiental”, afirma.

Segundo o educador, as experiências sonoras ajudaram as crianças a criarem conexões emocionais profundas com os temas trabalhados.

“Nos momentos de escuta da floresta viva e da floresta em chamas, observei meus alunos compartilhando sentimentos, fazendo reflexões importantes e compreendendo de maneira concreta os impactos que os incêndios florestais causam na natureza e nos seres vivos”, relata.

O professor também destaca a forma como a tecnologia foi incorporada ao processo educativo.

“As crianças tiveram contato com gravações, paisagens sonoras, linguagem simbólica e diferentes formas de comunicação e expressão, o que ampliou muito o envolvimento delas nas atividades e fortaleceu o protagonismo de cada estudante”, diz.

Para ele, o projeto também contribuiu diretamente para fortalecer vínculos coletivos entre os alunos.

“As dinâmicas colaborativas estimularam respeito, empatia, cooperação e pertencimento ao grupo. Eles realmente se sentiram parte da missão de serem ‘guardiões da floresta’. A Rádio Traquinagem vai muito além de um projeto interessante. É uma experiência educativa transformadora, que valoriza a voz da criança, desperta a criatividade, fortalece vínculos e aproxima os alunos de temas fundamentais através de uma proposta lúdica, humana e inovadora”, completa.

O projeto ganha ainda mais relevância diante do cenário brasileiro. Hoje, o Brasil possui cerca de 203 milhões de habitantes e pouco mais de 6 mil bibliotecas públicas e comunitárias cadastradas no Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas. Ao mesmo tempo, cerca de 63% das escolas públicas brasileiras não possuem biblioteca, realidade ainda mais grave em territórios periféricos, rurais e afastados dos grandes centros.

Nesse contexto, a Biblioteca Traquinagem surge como exemplo de inovação acessível, mostrando como oralidade, tecnologia simples, escuta e participação comunitária podem ampliar o acesso à literatura infantil de maneira democrática e contemporânea.

Serviço – saiba mais em https://www.instagram.com/radiotraquinagem/

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