Com o avanço dos emagrecedores e o fim de patentes, a
startup M7 Group estrutura força de vendas nacional para conectar laboratórios
magistrais a médicos e clínicas em 21 estados
O mercado brasileiro de medicamentos voltados para o
tratamento da obesidade e diabetes vive uma transformação estrutural que começa
a redesenhar as fronteiras entre a indústria tradicional, as farmácias de
manipulação e o ecossistema médico. Impulsionado pela febre dos agonistas de
GLP-1 (classe que inclui moléculas como a semaglutida e a tirzepatida), esse
segmento movimentou R$ 14,6 bilhões no mercado formal no acumulado de 12 meses
até abril de 2026 — um salto de 110% em comparação com o período anterior,
segundo dados da IQVIA compilados pelo Itaú BBA.
A projeção das principais casas de análise aponta para um
mercado formal de R$ 20 bilhões até o fim de dezembro deste ano, com potencial
para atingir R$ 61 bilhões até 2030. O avanço é tão expressivo que a categoria
já abocanha 5,7% de todo o varejo farmacêutico nacional. Relatórios financeiros
do Itaú BBA apontam que o fenômeno transbordou os balcões das farmácias,
gerando impactos diretos em setores tão diversos quanto os de alimentos,
vestuário, aviação e saúde suplementar.
No vácuo entre a explosão da demanda e o gargalo de acesso
financeiro e físico aos medicamentos de referência, ganhou tração o chamado
mercado magistral (de manipulação). Das cerca de 8.700 farmácias de manipulação
ativas no país — setor que faturou R$ 11,3 bilhões em 2023 —, um grupo
altamente restrito de apenas 20 estabelecimentos detém a infraestrutura de alta
complexidade exigida pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa)
para produzir fórmulas estéreis e injetáveis. Mesmo concentrado nesse nicho
restrito, o mercado de GLP-1 manipulado movimentou sozinho R$ 10 bilhões nos
últimos 12 meses. É sob essa dinâmica de forte demanda e pressão por
conformidade que emergem novos modelos de negócios voltados a organizar o
ecossistema.
Fundada em 2024 por profissionais egressos do setor
farmacêutico, a startup nacional M7 Group decidiu operar como o primeiro hub de
representação comercial estruturada focado especificamente na ponte entre esses
laboratórios magistrais de alta performance e os médicos prescritores. O modelo
mimetiza as grandes forças de visitação médica da indústria tradicional, mas
direcionado ao mercado de injetáveis personalizados. Em 14 meses de operação, a
companhia expandiu seu corpo técnico de 10 para mais de 70 consultores
especializados, marcando presença ativa em 21 estados brasileiros e cobertura
em todas as 27 unidades da federação.
O avanço desse ecossistema acontece em meio a um cenário de
aperto na fiscalização e mudanças em patentes. Em março de 2026, expirou a
patente da semaglutida (princípio ativo do Ozempic e Wegovy), ampliando o
apetite por alternativas no mercado. Paralelamente, a Anvisa intensificou o
controle sobre a manipulação dessas substâncias. Desde 2025, entraram em vigor
regras mais rígidas para a classe, como a retenção obrigatória de receita
médica e o rastreamento integral da cadeia de insumos por meio do Sistema Nacional
de Gerenciamento de Produtos Controlados (SNGPC).
A profissionalização dos canais de distribuição tenta também
fazer frente à informalidade. De acordo com estimativas de mercado, o comércio
paralelo e informal de GLP-1 — que corre à margem das regulamentações —
movimentou cerca de R$ 12,5 bilhões nos últimos 12 meses, valor que supera em
1,7 vez as vendas formais do principal medicamento de referência da categoria.
Na outra ponta do mercado formalizado, a tirzepatida (princípio ativo do
Mounjaro) desponta como a principal preferência nas prescrições de alta renda,
concentrando 57% de market share no mercado total de GLP-1 em junho de
2026, segundo dados da InfoPrice.
Para os fundadores da M7 Group, a tese de crescimento
acelerado apoia-se justamente em capturar a demanda médica que migra para o
mercado regulado após o endurecimento das normas. A cofundadora Gabriela
Moreira destaca que o negócio nasceu ao perceber que laboratórios, médicos e
pacientes tentavam resolver o mesmo problema de forma fragmentada, sem um canal
de comunicação estruturado.
Complementando a visão de expansão, o cofundador e CMO,
Vinicius de Paula, ressalta que o setor de saúde não perdoa atalhos e que a
operação foi desenhada para dar aos médicos a mesma segurança exigida de um
laboratório industrial. O objetivo agora, segundo o CEO Marcos Alves, é
garantir a governança para acompanhar o ritmo de expansão projetado até o fim
da década, sob a premissa de que a saúde só evolui quando todos os elos da
cadeia avançam juntos.