Um barco brasileiro, um comandante belga e uma mensagem de alcance universal estarão reunidos em uma nova jornada pelo Oceano Atlântico. Depois de conquistar o título da Globe40 2025/2026 na classe Sharp, o Barco Brasil Class40 151 volta ao cenário internacional para disputar a Rota do Rum – Destino Guadalupe, desta vez com Gaëtan Thomas no comando em solitário.
A largada acontece no domingo (1º de novembro), em Saint-Malo, na França. O desafio será percorrer aproximadamente 3.542 milhas náuticas, ou 6.560 quilômetros, até Guadalupe, no Caribe. Thomas calcula que precisará de 15 a 20 dias para concluir a viagem.
A embarcação continuará representando o Barco Brasil, preservando suas cores e a campanha de conscientização sobre o Acidente Vascular Cerebral (AVC), iniciada por José Guilherme Caldas e Luiz Bolina durante a volta ao mundo.
A chegada de Thomas ao projeto aconteceu depois da conclusão da Globe40. O acordo firmado com José Guilherme Caldas prevê que o belga utilize o Class40 151 em troca de uma reforma completa do barco após a competição anterior, além da devolução da embarcação em condições de navegabilidade ao final da Rota do Rum.
Para participar, o skipper também precisou cumprir a exigência de seis dias de navegação para obter a qualificação.
José Guilherme Caldas destacou a continuidade da campanha internacional do barco.
“O Barco Brasil segue navegando e escrevendo novos capítulos”, afirmou.
A decisão de manter a identidade visual brasileira foi uma escolha de Thomas, que também se identificou com o trabalho de conscientização desenvolvido pelo projeto.
“É uma honra, na verdade, porque eu não conhecia José. Depois de algumas conversas, ele decidiu me confiar o barco e manter as cores do Barco Brasil. Com todo o trabalho que ele desenvolve também na área médica e na luta contra o AVC, pareceu natural continuar essa mensagem aqui na França com a France AVC. Seguimos levando a mensagem de que cada minuto conta”, afirmou Gaëtan Thomas.
Entre os sharp, a meta é alcançar o pódio
A Rota do Rum reúne diferentes tipos de embarcações em uma travessia oceânica realizada sem tripulação. Na classe Class40, serão 49 barcos na disputa, sendo dez deles de proa convencional, conhecidos como sharp.
Essa configuração apresenta diferenças em relação aos projetos mais recentes, chamados de scow, que utilizam proas mais largas e podem obter vantagens de desempenho em determinadas condições de navegação.
Thomas pretende completar a prova e buscar uma posição de destaque entre os barcos do mesmo grupo do Class40 151. O velejador também considera a possibilidade de terminar entre os 20 primeiros colocados na classificação geral.
“A primeira coisa é terminar a regata. Esse é o meu primeiro desafio. Sobre o aspecto competitivo, quero guardar um pouco para mim, mas, como segredo, eu realmente gostaria de conseguir um pódio entre os sharp, dentro do Class40. Somos dez barcos nesse grupo e 49 no total. Se eu puder terminar no top 20 geral e no pódio entre os sharp, ficarei muito feliz”, disse o skipper.
José Guilherme Caldas também acredita que o desempenho poderá ser competitivo entre as embarcações de proa convencional, apesar das diferenças em relação aos modelos mais modernos.
“O Barco Brasil é um modelo de proa convencional conhecido como “sharp” mais lento que os barcos mais modernos chamados “scows”. Porém entre os barcos similares que nesta competição são 10 o Barco Brasil tem muito boas chances de ter um bom desempenho”, afirmou.
Navegação individual aumenta a complexidade da travessia
A experiência de Gaëtan Thomas em provas oceânicas inclui três voltas ao mundo como comandante da Clipper Round the World Yacht Race, competição que conta com tripulações.
Agora, o cenário será diferente. Sem outros velejadores a bordo, ele terá de administrar todas as atividades necessárias para conduzir o Class40 entre a França e o Caribe, incluindo manobras, planejamento da rota, acompanhamento do tempo e períodos de sono.
O início da competição também exige atenção especial. A saída de Saint-Malo passa pelo Canal da Mancha, região de circulação intensa de embarcações, antes de alcançar o Atlântico.
Para Thomas, a combinação entre diferentes categorias, o trecho inicial e a navegação individual torna a Rota do Rum uma experiência particular.
“Várias peculiaridades envolvem esta regata a primeira é que estamos competindo no meio de todas as divisões e diferentes tipos de barco. A segunda é que se trata de um trajeto inicial dentro do Canal de Mancha e depois no Atlântico e além do mais em solitário. Esse é um dos maiores desafios. A Mini Transat, por exemplo, começa nas Canárias. Aqui, o desafio é diferente”, afirmou.
Condições meteorológicas serão determinantes nos primeiros dias
Embora a estimativa total seja de até 20 dias de navegação, o comandante acredita que a primeira semana poderá ser a etapa mais desgastante. A expectativa é enfrentar ventos fortes e precisar reduzir os períodos de descanso.
“A primeira semana costuma ser difícil e com muito vento. Você não dorme muito. Ainda faltam alguns dias para a largada e, no mar, você só consegue confiar com mais segurança em uma previsão metereológica de quatro ou cinco dias. Vamos ver como as condições evoluem”, explicou.
Para garantir as condições necessárias à travessia, o Class40 151 recebeu uma revisão completa após a Globe40. O serviço incluiu intervenções no casco, na mastreação, nas velas, nos sistemas eletrônicos, no piloto automático e nos demais equipamentos utilizados na navegação oceânica.
A participação de Thomas foi oficializada depois que o belga concluiu os seis dias de navegação exigidos para sua qualificação.
Mensagem sobre o AVC acompanha a embarcação no Atlântico
Enquanto enfrenta o desafio esportivo, o Barco Brasil também mantém o compromisso de divulgar informações sobre o Acidente Vascular Cerebral. A campanha “Cada Minuto Conta” começou durante a Globe40, quando José Guilherme Caldas e Luiz Bolina utilizaram a volta ao mundo para alertar sobre o reconhecimento dos sintomas do AVC e a importância de buscar atendimento médico imediato.
Na etapa francesa, a iniciativa passa a contar com o Fonds de dotation France AVC, organização que atua em projetos de pesquisa, inovação e apoio a pacientes e familiares. Parte dos recursos obtidos com a campanha será destinada à entidade.
Thomas considera a continuidade da mensagem uma parte importante de sua participação na regata.
“José Guilherme e Luiz Bolina levaram essa causa ao redor do mundo. Agora, continuo essa história na França. Um skipper belga, um barco brasileiro e uma mensagem que é universal: cada minuto conta”, afirmou Gaëtan Thomas.
Antes da largada, o velejador também participou da apresentação oficial dos skippers no village da Rota do Rum, em Saint-Malo.
Próxima etapa do projeto é formar velejadores brasileiros
A participação na Rota do Rum acontece depois da campanha de José Guilherme Caldas e Luiz Bolina na Globe40 2025/2026, competição de volta ao mundo disputada em duplas.
Com a experiência adquirida, o Barco Brasil pretende ampliar sua atuação na vela oceânica internacional e preparar novos tripulantes brasileiros para competições de longa distância.
A próxima edição da Globe40, prevista para 2028/2029, está entre os principais objetivos do projeto. Até lá, a proposta é realizar diferentes treinamentos e participar de provas oceânicas utilizando o Class40 151 para capacitar os velejadores.
A estrutura do Barco Brasil também inclui outras três embarcações: Mussulo 50, Tutatis e HPE25.
A Rota do Rum – Destino Guadalupe terá início em 1º de novembro, em Saint-Malo, com chegada prevista em Guadalupe, no Caribe, depois de aproximadamente 3.542 milhas náuticas de navegação.
Sobre o Barco Brasil
O Barco Brasil é um projeto de vela oceânica desenvolvido por José Guilherme Caldas e Luiz Bolina. Suas atividades envolvem competições internacionais, formação de velejadores e conscientização sobre o Acidente Vascular Cerebral (AVC).
José Guilherme Caldas ocupa o cargo de professor livre-docente do Departamento de Radiologia da Universidade de São Paulo (USP), é chefe do Serviço de Neurorradiologia Intervencionista do Hospital das Clínicas da USP e coordenador médico do Hospital Sírio-Libanês.
Luiz Bolina atua como professor de wingfoil e vela oceânica, além de trabalhar com day charter.
O projeto conta com quatro embarcações: Barco Brasil Class40 151, Mussulo 50, Tutatis e HPE25. Entre as metas está preparar tripulantes brasileiros para provas oceânicas e para a Globe40 de 2028/2029.