Fonoaudióloga explica como os vírus e o ar seco
sobrecarregam a laringe e detalha as barreiras para profissionais da voz na
estação fria.
Com a queda das temperaturas, o aumento nos diagnósticos de
gripes, resfriados, crises alérgicas e amigdalites é imediato. Contudo, além
dos tradicionais sintomas respiratórios, o inverno traz consigo um pico de
queixas ligadas à saúde vocal, com destaque para a rouquidão e a fadiga ao
falar. Muitas pessoas atribuem esse fenômeno diretamente à exposição ao clima
frio, mas a medicina demonstra que o verdadeiro gatilho é um conjunto de
alterações ambientais e comportamentais que agridem o sistema fonador.
A Dra. Monica Bretas, fonoaudióloga com mais de duas
décadas de experiência, coordenadora de fonoaudiologia no Centro de Cardiologia
e Reabilitação Cardiopulmonar do Hospital Sírio-Libanês explicou como as
infecções sazonais afetam a vibração das pregas vocais e quais as melhores
condutas para proteger a laringe.
O verdadeiro mecanismo da rouquidão no inverno
Muitos acreditam que o vento gelado ou o frio, por si só,
causam a perda da voz. Na realidade, o inverno propicia o cenário ideal para o
adoecimento das vias aéreas: o volume de chuvas cai, o ar torna-se extremamente
seco e a circulação de vírus respiratórios atinge o ápice devido ao hábito
social de permanecer em ambientes fechados e sem ventilação.
Quando uma pessoa contrai uma gripe ou resfriado, o
processo inflamatório frequentemente atinge a laringe. Esse quadro faz com que
as pregas vocais fiquem edemaciadas (inchadas) e altamente sensíveis,
prejudicando a sua capacidade natural de vibração harmoniosa. Como resultado, a
voz torna-se rouca e fraca.
O perigo dos comportamentos compensatórios:
- Forçar
a fala: Tentar elevar o volume da voz para compensar a fraqueza vocal gera
uma sobrecarga mecânica na laringe. - Pigarro
crônico: O ato de pigarrear para limpar a garganta gera um atrito violento
e direto entre as pregas vocais, aumentando a irritação do tecido. - Tosse
persistente: Tossir repetidamente sem tratar a causa de base perpetua o
trauma físico na mucosa das cordas vocais, prolongando a recuperação.
Hábitos nocivos e o risco de fadiga para os
profissionais da voz
Ignorar os sinais primários de esgotamento vocal e
continuar utilizando a voz de forma irrestrita é um dos erros mais frequentes
nos meses frios. Sintomas como rouquidão persistente, cansaço evidente ao
falar, dor local ou a necessidade de fazer esforço físico para emitir as
palavras jamais devem ser normalizados — especialmente por quem utiliza a voz
como ferramenta de trabalho.
Falar por horas consecutivas sem pausas de repouso, tentar
competir com ruídos de fundo do ambiente, manter um uso intenso da voz mesmo
estando gripado e dormir mal são comportamentos que aceleram o desgaste e
aumentam o risco de lesões estruturais permanentes.
“Quem trabalha com a voz deve encará-la da mesma forma
que um atleta encara o próprio corpo. O desempenho não depende apenas do
esforço, mas também de técnica, preparo e recuperação”, alerta a Dra.
Monica Bretas.
Hidratação estratégica, umidificação e o
impacto do refluxo
A prevenção de patologias vocais exige um ecossistema de
cuidados integrados. O principal deles é a hidratação sistêmica: as pregas
vocais necessitam de água para manter uma camada de muco protetor que facilita
a vibração e diminui o atrito. A ingestão de água deve ser fracionada ao longo
do dia, pois a hidratação das pregas vocais depende do bom estado de hidratação
do organismo. Beber grandes volumes de uma só vez não produz o mesmo efeito que
manter uma hidratação adequada e contínua
Cuidados estratégicos para proteger a saúde vocal
Umidificação do ar
Forma correta de adoção
- Utilizar
o umidificador em dias secos; - Higienizar
os filtros rigorosamente.
Impacto na saúde vocal
- Alivia
o ressecamento das vias aéreas; - Auxilia
na hidratação do ambiente, mas não substitui a ingestão de água.
Combate ao refluxo
Forma correta de adoção
- Evitar
frituras; - Reduzir
o consumo de café; - Evitar
bebidas alcoólicas; - Reduzir
consumo de leite e derivados; - Evitar
alimentos condimentados.
Impacto na saúde vocal
- Impede
que o ácido estomacal alcance a laringe; - Protege
a mucosa sensível contra irritações e inflamações.
Fracionamento das refeições
Forma correta de adoção
- Consumir
porções menores ao longo do dia; - Não
se deitar nas duas horas seguintes às refeições.
Impacto na saúde vocal
- Reduz
a pressão intra-abdominal; - Diminui
episódios de pigarro e rouquidão.
Sinais de alerta: quando a rouquidão exige
investigação imediata
Na maioria dos casos de infecção respiratória aguda, a
rouquidão é um sintoma transitório que regride espontaneamente conforme o corpo
combate o vírus. No entanto, se a alteração na qualidade da voz estender-se por
mais de duas semanas, torna-se obrigatória a realização de uma avaliação médica
especializada com um otorrinolaringologista e fonoaudiólogo.
A consulta diagnóstica de urgência faz-se necessária caso o
paciente apresente perda progressiva da voz, dor intensa durante a fala,
dificuldade para respirar (dispneia), engasgos ou dor para engolir (disfagia),
e episódios repetitivos de perda de voz. O alerta é ainda mais crítico para
pacientes tabagistas, ex-fumantes e pessoas com consumo crônico de álcool, uma
vez que a rouquidão prolongada nesses grupos é um dos principais sinais
precoces de lesões malignas na laringe.
Guia de sobrevivência vocal no inverno para
profissionais
Para professores, jornalistas, palestrantes, cantores e
atores que enfrentam as demandas de trabalho sob o clima seco e frio, a
fonoaudióloga direciona um conjunto de orientações preventivas essenciais:
- Não
force o tecido lesionado: Se você estiver com laringite ou amigdalite,
repouse a voz o máximo possível. Forçar a fala sobre um tecido inflamado é
o caminho mais curto para lesões nas cordas vocais como nódulos (“calos”)
por exemplo. - Faça
pausas de silêncio: Programe pequenos intervalos de 5 a 10 minutos de
silêncio absoluto após períodos de uso prolongado da fala. - Utilize
amplificação: Não tente atingir o fundo de uma sala de aula ou auditório
no grito. O uso de microfones é uma medida essencial de ergonomia e
proteção vocal. - Elimine
o pigarro: Quando sentir secreção na garganta, evite pigarrear. Prefira
engolir a saliva com força, respirar fundo ou gargarejo com agua morna.
Perguntas frequentes sobre saúde vocal e
rouquidão (FAQ)
Pastilhas e balas de menta ou gengibre ajudam a
curar a rouquidão?
Não. Pastilhas de menta, eucalipto ou gengibre causam um
efeito anestésico temporário na garganta. Isso mascara a dor e o cansaço,
fazendo com que a pessoa force ainda mais a voz sem perceber que está
machucando as pregas vocais, o que pode agravar a lesão inflamatória oculta.
Bebidas muito quentes fazem bem ou mal para a
voz no inverno?
O calor extremo de chás ou cafés fervendo pode agredir a
mucosa da boca e da faringe, além de relaxar excessivamente as estruturas da
laringe se consumidos imediatamente antes do uso profissional da voz. O ideal
para a hidratação e conforto térmico é ingerir líquidos em temperatura ambiente
ou levemente mornos.
Qual a relação entre as disfunções de
deglutição (disfagia) e a rouquidão?
A laringe possui a função primordial de proteger a via
aérea durante a alimentação. Se um paciente apresenta episódios frequentes de
rouquidão associados a engasgos com saliva, líquidos ou alimentos, pode haver
um quadro de disfagia. Essa condição necessita de reabilitação fonoaudiológica
para evitar que resíduos entrem nos pulmões, causando pneumonia.
Fonte:
Dra. Monica Bretas – Fonoaudióloga – CRFa 2: 3069-6
Doutora em Ciências em Oncologia pelo AC Camargo Cancer
Center. Especialista em Disfagia e Reabilitação Vocal com mais de 20 anos de
atuação no Hospital Sírio-Libanês. Sócia-fundadora da Clínica FOCOS e criadora
do projeto de educação em saúde “O Foco da Fono”.