- Setor cresce com o avanço do delivery e do e-commerce, enquanto trabalhadores lidam com custos operacionais e baixa cobertura previdenciária
- Projeções indicam expansão do mercado até 2029
- Formalização e documentos necessários
- O que pesa no bolso do entregador?
- 75% querem continuar, apesar da baixa cobertura previdenciária
Setor cresce com o avanço do delivery e do e-commerce, enquanto trabalhadores lidam com custos operacionais e baixa cobertura previdenciária
Entregadores com jornada de 40 horas semanais alcançam um rendimento mensal líquido entre R$ 2.669 e R$ 3.581, segundo o Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap). Os valores ultrapassam o salário mínimo e a remuneração média de profissionais com ensino médio na área de serviços.
O número de profissionais no segmento de aplicativos de entrega de comida e produtos chegou a 485 mil no terceiro trimestre de 2024, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), representando uma expansão de 18% em comparação com 2022.
A atividade tem atraído não só quem busca uma fonte de sustento, mas também profissionais interessados em complementar o orçamento. Levantamentos da Associação Brasileira de Mobilidade e Tecnologia (Amobitec) e do Cebrap mostram que 48% dos entregadores utilizam as plataformas de forma secundária, enquanto 52% dependem exclusivamente dessa fonte de receita.
Para ingressar no mercado, os trabalhadores precisam cumprir as exigências de formalização tributária e os critérios técnicos das plataformas, que variam conforme o modelo de veículo utilizado.
Há trabalhadores que recorrem ao financiamento de carros usados como alternativa para iniciar a operação. O sucesso financeiro depende do equilíbrio entre ganhos e controle de custos operacionais, como combustível e manutenção do veículo.
Projeções indicam expansão do mercado até 2029
As projeções econômicas sugerem expansão do mercado nos próximos anos. A receita do setor de entrega de comida on-line no Brasil atingiu US$ 21,18 bilhões em 2025, de acordo com dados da Statista. O levantamento estima uma taxa de crescimento anual de 7% para o até 2029.
Um dos principais incentivadores da demanda pelo serviço de logística urbana é o comércio eletrônico. A Associação Brasileira de Comércio Eletrônico (ABComm) prevê que o faturamento do e-commerce nacional deve ultrapassar R$ 258,4 bilhões este ano, expansão de 10% em relação a 2025.
Um estudo da Americas Market Intelligence (AMI) apresenta números ainda mais expressivos: o setor pode atingir US$ 432 bilhões até o final deste ano, uma expansão de 20% em segmentos que abrangem desde o varejo físico até serviços de streaming.
O impacto na geração de empregos é direto: operações ligadas a aplicativos viabilizaram mais de 1 milhão de ocupações em 2024, entre vagas diretas e indiretas, segundo a Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe). O número equivale a quase 1% da população ocupada do país. Em 2022, o setor já havia sido responsável pela criação de mais de 800 mil postos, segundo dados da mesma instituição.
Formalização e documentos necessários
Para atuar no setor de entregas, é necessário ter mais de 18 anos, documento oficial e CNH válida. Há empresas que também exigem CNPJ ou registro como Microempreendedor Individual (MEI).
A frota utilizada pelos entregadores deve seguir padrões de conservação e limites de fabricação. Para profissionais que optam pela motocicleta, a estrutura exige equipamentos específicos de transporte, como mochilas ou baús fechados com capacidade mínima de 80 litros.
O trabalhador precisa, ainda, de smartphone Android com plano de dados para operar os sistemas de GPS. Outra orientação é investir em Equipamentos de Proteção Individual (EPIs), incluindo capacetes, botas e coletes, visando a segurança viária, principalmente para condutores de motos.
O que pesa no bolso do entregador?
O cálculo do lucro líquido dos entregadores de aplicativos exige a dedução imediata de despesas operacionais fixas: os gastos com combustível e a manutenção preventiva lideram os custos, somados à depreciação do veículo e ao desgaste de peças. O seguro veicular também é obrigatório para a segurança financeira contra acidentes durante os turnos.
A manutenção da formalidade exige o pagamento mensal da guia DAS (Microempreendedor Individual). O orçamento desses trabalhadores deve prever ainda o IPVA, o licenciamento e a declaração de imposto de renda.
As próprias plataformas retêm uma porcentagem sobre cada entrega realizada, o que reduz a margem bruta do serviço. Despesas cotidianas com alimentação fora de casa e a mensalidade do plano de telefonia móvel completam a lista de despesas.
A organização financeira é necessária para assegurar o equilíbrio entre ganhos e custos. Profissionais com mais de uma fonte de renda podem separar receitas em contas distintas para facilitar o controle e o cumprimento das obrigações tributárias. Se uma das atividades assegurar pagamentos em moeda estrangeira, uma alternativa é abrir conta internacional para realizar a gestão das finanças.
75% querem continuar, apesar da baixa cobertura previdenciária
A flexibilidade de horários é o principal atrativo para a adaptação da jornada à rotina pessoal. Relatório da Amobitec e do Cebrap aponta que jornadas de 20 horas semanais geram ganhos entre R$ 807 e R$ 1.325.
O nível de satisfação com o modelo de trabalho é monitorado pelo Cebrap, que aponta que 75% dos entregadores manifestam a intenção de permanecer atuando no setor de aplicativos.
A cobertura previdenciária, no entanto, permanece baixa no segmento. Segundo o IBGE, apenas 35,9% dos trabalhadores “plataformizados” contribuem para o INSS. O índice é ainda menor entre os entregadores específicos: 34%. Desse grupo, 27% realizam a contribuição por meio da formalização como MEI.
O IBGE aponta uma disparidade na carga horária: entregadores de aplicativos trabalham, em média, 46,4 horas por semana, enquanto a média geral de trabalhadores não vinculados a plataformas é de 39,3 horas.
O rendimento mensal bruto dos trabalhadores de aplicativos, calculado em R$ 2.996, é 4,2% maior que os R$ 2.875 recebidos pelos demais profissionais. Contudo, o ganho por hora trabalhada inverte a vantagem: o profissional de aplicativo recebe R$ 15,4 por hora, valor 8,3% inferior aos R$ 16,8 pagos na média do mercado de trabalho tradicional.