Por Adriano Buzaid, CEO da Gohobby
Durante décadas, imaginar robôs convivendo
com humanos era coisa de desenho animado. Nos Jetsons, eles limpavam a
casa, organizavam a rotina e resolviam problemas com eficiência quase mágica. A
diferença é que, enquanto essa cena permaneceu no campo da fantasia em boa
parte do mundo, ela começou a se materializar, de forma silenciosa e
pragmática, em economias que tratam tecnologia como infraestrutura e não como
curiosidade.
Com isso, o debate mudou de natureza. Já
não se discute quando essa tecnologia chegará, mas onde sua adoção já é
economicamente racional. Em pouco mais de uma década, o custo dessas soluções
caiu de cerca de US$ 1 milhão para valores próximos a US$ 16 mil. No Brasil, o
investimento gira entre R$ 250 mil e R$ 300 mil, um patamar que desloca o tema
do laboratório para a planilha financeira de empresas de médio e grande porte.
No país, a adoção dessas tecnologias ainda
se concentra, em grande medida, em tarefas perigosas ou de alto risco,
especialmente em setores como utilities, segurança e ambientes industriais
críticos. Nesses contextos, sistemas autônomos já realizam inspeções em redes
elétricas, detectam vazamentos de gás e operam em áreas insalubres ou de
difícil acesso, com foco claro na mitigação de acidentes, na redução da
exposição humana e no controle de passivos operacionais.
Ao mesmo tempo, esse movimento começa a
avançar para além da aplicação prática e ganha força no campo da pesquisa
acadêmica. Universidades e centros de inovação têm assumido um papel
estratégico no desenvolvimento, teste e validação dessas soluções, contribuindo
para acelerar sua maturidade tecnológica e ampliar seu uso em áreas cada vez
mais relevantes da economia.
Já no exterior, especialmente na Ásia, a
lógica é distinta. Na China, por exemplo, essa transição já está em
curso. Lá, os humanóides operam centros de distribuição automatizados, com
separação de pedidos, reposição de estoques e funcionamento contínuo. Empresas
testam modelos com aparência humana em armazéns híbridos, nos quais máquinas e
pessoas compartilham o mesmo espaço de forma coordenada e segura.
O varejo físico acompanha esse movimento.
Tecnologias que no Brasil ainda são vistas como experimentais já desempenham
funções operacionais claras: recepção, orientação ao consumidor, inventário em
tempo real e controle de perdas. O setor hoteleiro também reforça essa
diferença, os hotéis asiáticos utilizam agentes automatizados para concierge,
entregas internas e atendimento multilíngue.
Nos serviços públicos, a assimetria também
é evidente. Em universidades e eventos corporativos, essas soluções atuam como
interfaces institucionais e educacionais, ampliando engajamento e coleta
estruturada de dados. O ganho vai além da eficiência financeira: trata-se de
assegurar padrão elevado de serviço de forma contínua.
Há, ainda, uma fronteira de médio prazo com
potencial transformador: o ambiente doméstico. O envelhecimento populacional e
a escassez de mão de obra para cuidados pessoais e serviços domésticos criam
uma demanda estrutural que tende a acelerar esse mercado, embora sua maturação
seja mais lenta.
No Brasil, iniciativas semelhantes ainda
são pontuais e tratadas como pilotos. Enquanto, a China avança sob uma
lógica mais pragmática. Em economias que operam com jornadas extensas e
múltiplos fusos, a automação não elimina o humano, mas sustenta uma lógica de
eficiência contínua, liberando profissionais para atividades de maior valor,
julgamento e criatividade.
Segundo estimativas da McKinsey, a
automação inteligente pode elevar a eficiência operacional em até 30% e reduzir
custos em até 25%. A tecnologia existe. Em muitos casos, o capital também. O
gargalo não é técnico nem financeiro. É estratégico.
A fronteira que começa a ser cruzada não é
tecnológica. É cultural.