Depois dos 60, a cirurgia plástica muda de pergunta
Foto: Arquivo pessoal

Durante muito tempo, falar em cirurgia plástica depois dos 60 anos significava falar em juventude: diminuir rugas, retirar excesso de pele, levantar tecidos e, de alguma maneira, fazer com que o rosto e o corpo parecessem alguns anos mais jovens. Essa lógica, porém, está mudando , e essa transformação diz muito sobre a maneira como a sociedade passou a enxergar o envelhecimento.

O paciente que chega hoje aos 60, 65 ou 70 anos é, em muitos aspectos, diferente daquele de gerações anteriores. Trabalha, viaja, pratica atividade física, mantém uma vida social ativa, inicia novos projetos e, muitas vezes, vive uma fase de grande liberdade pessoal. Sua relação com a aparência também mudou. Mais do que esconder a idade, ele quer que sua imagem seja coerente com a maneira como se sente.

A pergunta começa a ser menos “como parecer mais jovem?” e mais “como envelhecer melhor?”.

Essa mudança de perspectiva é uma das transformações mais interessantes da cirurgia plástica contemporânea. O objetivo deixa de ser apagar os sinais do tempo e passa a ser restaurar aquilo que foi sendo modificado pelo envelhecimento, preservando a identidade e as características individuais.

Um rosto de 65 anos não precisa parecer um rosto de 40. Pode parecer um rosto de 65 anos bem cuidado, descansado, saudável e compatível com a vitalidade daquela pessoa. Um lifting facial, por exemplo, pode recuperar contornos, tratar a flacidez e melhorar a região do pescoço sem transformar a fisionomia do paciente. A cirurgia passa a ser menos uma tentativa de voltar no tempo e mais uma forma de alinhar aparência e identidade.

Esse movimento acompanha também uma mudança demográfica. Pessoas mais velhas estão vivendo mais, permanecendo ativas por mais tempo e demonstrando maior interesse em cuidar da própria imagem. A estética deixou de ser, portanto, uma preocupação exclusiva dos mais jovens.

Mas existe outro fenômeno contemporâneo que está mudando profundamente o perfil desses pacientes: o emagrecimento acelerado.

A popularização dos medicamentos utilizados no tratamento da obesidade, especialmente os relacionados à via do GLP-1, trouxe uma nova realidade aos consultórios de cirurgia plástica. A perda significativa de peso pode representar uma enorme conquista para a saúde, mas também pode produzir mudanças importantes na aparência. Quando o volume corporal diminui rapidamente, a pele nem sempre consegue acompanhar essa nova dimensão do corpo.

O resultado pode ser excesso de pele no abdômen, braços, coxas e mamas. No rosto, a redução de gordura pode evidenciar a perda de volume e tornar mais perceptíveis a flacidez e determinadas marcas do envelhecimento.
É importante fazer uma ressalva: não se trata de afirmar que emagrecer envelhece. O que acontece é que uma perda importante e rápida de volume pode revelar ou acentuar alterações que antes estavam parcialmente mascaradas pelo próprio volume dos tecidos.

Para o paciente acima dos 60 anos, essa questão merece atenção especial. O envelhecimento já envolve mudanças na elasticidade da pele, na distribuição da gordura e na massa muscular. Quando a essas alterações se soma uma grande perda de peso, a transformação corporal pode ser bastante significativa.

Por isso, quem emagrece muito não deve ser visto simplesmente como alguém que ficou “menor”. Muitas vezes, tornou-se um corpo diferente.

Depois de uma grande perda de peso, procedimentos de contorno corporal podem ser indicados para tratar o excesso de pele, como abdominoplastia, cirurgias das mamas, lifting de braços ou de coxas. Mas não se deve ter pressa. Antes de pensar em cirurgia, é necessário avaliar se o peso está estabilizado, como está a composição corporal, se houve perda de massa muscular e, principalmente, como está o estado nutricional.

Uma pessoa pode ter atingido o peso desejado e ainda não estar preparada para uma cirurgia. Grandes perdas de peso podem estar associadas a alterações nutricionais que precisam ser identificadas e corrigidas. Proteínas, vitaminas e minerais têm papel importante na cicatrização e na recuperação. Em alguns casos, portanto, o primeiro passo não é operar, mas preparar o organismo.

No rosto, o processo é igualmente delicado. O envelhecimento facial não acontece apenas porque a pele fica flácida. Há mudanças na gordura, nos tecidos profundos, na estrutura óssea e na qualidade da pele. Quando ocorre uma perda importante de peso, a diminuição do volume facial pode tornar essas alterações ainda mais evidentes.

Por isso, simplesmente “esticar” a pele nem sempre é suficiente. O tratamento precisa considerar a arquitetura do rosto e suas proporções. Em determinados pacientes, pode envolver reposicionamento de tecidos, preservação ou reposição criteriosa de volume e cuidados com a qualidade da pele. O objetivo não é preencher tudo o que parece ter perdido volume, mas recuperar equilíbrio.

Essa é uma das grandes diferenças da cirurgia plástica contemporânea: a busca pela naturalidade passou a ser também uma questão de identidade.

O paciente 60+ não quer necessariamente que as pessoas pensem que ele tem 50. Muitas vezes, simplesmente quer que percebam que ele está bem.

Por isso, a avaliação desse paciente não pode ser baseada apenas na idade cronológica. Dois indivíduos de 68 anos podem apresentar condições físicas completamente diferentes. Um pode ser ativo, independente e ter excelente condição clínica; outro pode apresentar perda de massa muscular, doenças crônicas ou alterações nutricionais. O planejamento precisa considerar a pessoa como um todo.

A cirurgia plástica, nesse contexto, começa muito antes da sala de cirurgia.

Existe ainda uma mudança cultural importante. Aos 60, 65 ou 70 anos, muitas pessoas não estão encerrando um ciclo. Estão começando outro. Viajam, trabalham, praticam esportes, se relacionam, frequentam eventos, mudam de profissão e retomam projetos. A longevidade ampliou não apenas a expectativa de vida, mas também a expectativa sobre o que é possível fazer durante essa vida.

A aparência passou a acompanhar essa transformação.

Cuidar da imagem depois dos 60 não precisa significar uma tentativa de negar a idade. Pode significar simplesmente querer que o exterior esteja em sintonia com aquilo que se vive por dentro. E isso muda o conceito de resultado. Um bom resultado não é obrigatoriamente aquele que produz a maior transformação. Muitas vezes, é aquele que devolve proporção, leveza e harmonia sem denunciar o procedimento. É aquele que permite ao paciente continuar reconhecendo a própria expressão, o próprio corpo e a própria história.

Envelhecer não é uma doença que precisa ser corrigida. É um processo natural. Mas envelhecer bem envolve escolhas , e cuidar da aparência pode fazer parte delas.

A cirurgia plástica não interrompe o tempo, nem deveria prometer isso. O que ela pode fazer, quando bem indicada e realizada com planejamento, é acompanhar as mudanças do corpo e ajudar o paciente a se sentir confortável com a imagem que vê no espelho.

Talvez a pergunta mais contemporânea para quem chega aos 60 não seja mais “quantos anos eu consigo tirar da minha aparência?”.

Talvez seja: como quero envelhecer?

E, para um número crescente de pessoas, a resposta não passa por parecer mais jovem. Passa por parecer saudável, ativo, descansado, proporcional e, acima de tudo, coerente com a vida que ainda deseja viver.

 

EDUARDO SUCUPIRA – Cirurgião Plástico, realizou a sua formação no Serviço do Prof. Ivo Pitanguy(1997-1999). É Especialista e Membro Titular da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica. Membro titular do Colégio Brasileiro de Cirurgiões (CBC)

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