Programa do SUS abre caminho para levar equipes de saúde à casa dos idosos da Alta Paulista
Divulgação

Artigo por: Humberto Tobé, Fátima Christine

Com população envelhecendo em ritmo acelerado, a região tem no Padi Brasil uma ferramenta para acompanhar quem já não consegue chegar até a unidade de saúde

Em cidades como Tupã, polo da Alta Paulista com 63.928 moradores segundo o Censo 2022, uma cena se repete em muitas ruas: o idoso que já não sai de casa. Pode ser por causa de um AVC, de uma artrose avançada, de uma demência que tirou a segurança de andar sozinho ou apenas pela fragilidade que os anos trazem. Para essas famílias, uma consulta de rotina vira operação logística: alguém precisa faltar ao trabalho, providenciar transporte e carregar o paciente até a unidade de saúde. Quando isso não é possível, o acompanhamento simplesmente para.

É para essa realidade que o Ministério da Saúde criou o Programa de Atenção Domiciliar à Pessoa Idosa, o Padi Brasil. Instituído pela Portaria GM/MS nº 9.584, de dezembro de 2025, e lançado nacionalmente em junho de 2026, o programa financia equipes multiprofissionais da Atenção Primária, as eMulti, para atender em casa pessoas com 60 anos ou mais que estão restritas ao domicílio.

A proposta não se limita a uma visita médica. A equipe faz uma avaliação multidimensional do idoso, com o instrumento IVCF-20 integrado ao prontuário eletrônico do SUS. A avaliação cobre as doenças e os remédios em uso, mas também a capacidade de tomar banho e se alimentar, a memória, o humor, a nutrição, a rede de apoio familiar e até os riscos de queda dentro de casa. A partir daí, monta-se um plano de cuidados individual, revisado conforme a evolução do paciente, e familiares e cuidadores recebem orientação para o dia a dia.

Para os municípios, o Governo Federal oferece um incentivo mensal adicional de R$ 5 mil a R$ 10 mil por equipe, conforme a modalidade, além de uma parcela única para a implantação. A adesão é feita pelo e-Gestor. Em todo o país, 2.733 municípios já pediram para participar, somando 3.677 equipes, e o investimento previsto chega a cerca de R$ 500 milhões até 2027.

A Alta Paulista reúne muitos municípios de pequeno e médio porte, com população envelhecida e distâncias consideráveis até os hospitais de referência. Nesse cenário, Tupã ocupa um papel natural de liderança: concentra serviços, profissionais e a estrutura de Atenção Primária que dá suporte às cidades vizinhas. Um modelo de cuidado domiciliar organizado a partir do polo regional tende a se espalhar e a servir de referência para os municípios do entorno.

O contraste com a ausência desse cuidado é claro. Sem acompanhamento regular, o idoso acamado costuma chegar ao sistema de saúde pela porta mais cara e mais arriscada: o pronto-socorro, quando a pressão já descompensou, a ferida já infeccionou ou a queda já aconteceu. Cada internação evitável significa sofrimento para o paciente, desgaste para a família e um leito hospitalar ocupado que poderia atender outro caso urgente. A própria origem do programa está ligada a esse problema: a experiência que inspirou o Padi nasceu da constatação de que idosos sem seguimento após a alta voltavam ao hospital repetidas vezes.

Há ainda o peso que recai sobre as famílias, quase sempre sobre uma filha, esposa ou neta que assume sozinha o papel de cuidadora. Com o programa, essa pessoa passa a ter a quem recorrer, com orientação profissional sobre medicação, alimentação, mobilidade e sinais de alerta.

No Brasil, 80% das pessoas idosas dependem exclusivamente do SUS. A população com 60 anos ou mais já passa de 32,1 milhões de pessoas, segundo o Censo 2022, e no estado de São Paulo esse grupo cresceu 60,3% entre 2010 e 2022. Para quem envelhece no interior paulista, longe dos grandes centros, um programa que leva a equipe de saúde até a sala de casa pode ser a diferença entre envelhecer com acompanhamento e envelhecer esquecido.

Para a Alta Paulista, o Padi Brasil é uma oportunidade concreta de transformar o cuidado ao idoso em política permanente, com financiamento federal e integração à rede do SUS.

Referências

BRASIL. Ministério da Saúde. Portaria GM/MS nº 9.584, de 22 de dezembro de 2025. Institui o Programa de Atenção Domiciliar à Pessoa Idosa (Padi) e estabelece critérios para o repasse de incentivo financeiro adicional às equipes Multiprofissionais na Atenção Primária à Saúde (eMulti). Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, 23 dez. 2025. Disponível em: https://www.in.gov.br/web/dou/-/portaria-gm/ms-n-9.584-de-22-de-dezembro-de-2025-677630929.

Sobre os autores:

Humberto Tobé é Pós-Graduado em Gestão da Saúde Pública, trabalha na interlocução com prefeitos, vereadores, gestores municipais e representantes da área da saúde dos municípios paulistas.

Fatima Crhistine é mestranda em Políticas Públicas pela Universidade Católica de Brasília (UCB), graduada em Economia e Pedagogia, com pós-graduação em Educação Parental e Socioemocional. Servidora Pública Federal cedida da Universidade Federal do ABC para a Secretaria Executiva do Ministério da Saúde.

Encontrou algum erro? Entre em contato