Seu histórico de saúde acompanha você aonde você for?
Divulgação

Brasil avança no
registro digital de informações de saúde, mas integração entre sistemas ainda é
desafio para profissionais e pacientes

Imagine passar mal durante uma viagem e chegar a um pronto
atendimento sem conseguir dizer quais medicamentos utiliza, se possui alergias,
quais exames realizou recentemente ou por quais tratamentos já passou. Muitas
dessas informações podem estar registradas digitalmente. O problema é saber se
o profissional que está atendendo você conseguirá acessá-las.

A dificuldade também aparece quando alguém muda de plano
de saúde, troca de médico ou começa um tratamento em outro estado. Consultas,
exames, diagnósticos e procedimentos realizados ao longo dos anos formam uma história
clínica, mas partes dela podem permanecer distribuídas entre diferentes
instituições.

Os números mostram a distância entre registrar e
compartilhar. Segundo a TIC Saúde 2025, 92% dos estabelecimentos de saúde
brasileiros possuíam sistema eletrônico para registrar informações dos
pacientes, mas apenas 27% contavam com interoperabilidade, capacidade de
diferentes sistemas trocarem e utilizarem dados. Entre os estabelecimentos
privados, o percentual era de 14%.

O Brasil já possui uma infraestrutura nacional voltada a
essa integração. A Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS), do Ministério da
Saúde, conecta sistemas em todo o país para o compartilhamento padronizado de
informações. Médicos, enfermeiros e odontólogos podem consultar o histórico
clínico durante o atendimento, dentro das regras de acesso e proteção dos
dados.

Para mostrar como isso pode funcionar na prática, o
próprio Ministério utiliza a jornada de um cidadão que é vacinado em Manaus,
atendido posteriormente em Belém, internado por um plano de saúde em Minas
Gerais e realiza um exame na rede privada no Rio Grande do Sul. Os registros
são integrados à RNDS para que o histórico possa acompanhar seu percurso entre
diferentes serviços e localidades.

A diferença entre possuir a informação e conseguir
utilizá-la no momento necessário ajuda a explicar por que a digitalização da
saúde entra em uma nova etapa. Prontuários eletrônicos já estão amplamente
presentes. O desafio agora é fazer sistemas diferentes conversarem entre si.

Márcio Oliveira, especialista em desenvolvimento de novos
negócios, acompanha essa transformação a partir da experiência na gestão de
serviços de saúde, que inclui equipes médicas de hospitais e unidades de pronto
atendimento, além da área laboratorial. A interoperabilidade, porém, não
resolve sozinha todos os desafios. Sistemas podem trocar informações e, ainda
assim, organizações precisam saber como utilizá-las de maneira útil para
assistência e gestão. É nessa etapa que análise de dados, automação e
inteligência artificial ganham espaço.

Em 2025, 18% dos estabelecimentos de saúde brasileiros já
utilizavam inteligência artificial. Entre os que adotavam a tecnologia, 45% a
empregavam na organização de processos clínicos e administrativos e 26% no
auxílio a diagnósticos. “O avanço da IA torna ainda mais importante uma
distinção. Digitalizar uma informação não significa integrá-la e integrar dados
não significa, automaticamente, transformá-los em conhecimento útil para uma
decisão. O valor está em fazer a informação certa chegar ao profissional certo,
no momento em que ela é necessária”, afirma Oliveira.

A questão ganha peso porque os dados de saúde estão entre
as informações pessoais mais sensíveis. Interoperabilidade não significa
prontuários abertos nem acesso indiscriminado ao histórico de uma pessoa. Na
RNDS, o acesso é restrito a finalidades assistenciais e de gestão da saúde e
segue padrões de segurança, privacidade e as diretrizes da Lei Geral de
Proteção de Dados.

Para o advogado Lucas Paglia, especialista em direito
digital, cibersegurança e proteção de dados, ampliar a integração exige que o
acesso às informações tenha limites bem definidos. “Quando falamos em dados de
saúde, permitir que a informação acompanhe o paciente não significa permitir
que ela circule sem controle. É preciso garantir que o acesso ocorra para uma
finalidade legítima, por profissionais autorizados e com mecanismos capazes de
proteger essas informações durante todo o processo”, afirma.

O desafio, portanto, não é fazer todos os dados circularem
livremente. É permitir que informações relevantes possam ser compartilhadas,
quando necessário e de forma protegida, entre profissionais e sistemas
autorizados. “Para quem administra serviços de saúde, isso envolve tecnologia,
integração e capacidade de transformar registros dispersos em informação útil.
Para o paciente, a questão é muito mais concreta. Ele pode trocar de médico,
plano, hospital ou até de estado. Sua história de saúde não deveria precisar
começar novamente a cada mudança”, conclui Oliveira.

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