Humberto Tobé, Fátima Christine
Cidade da Alta Paulista combina a rede do SUS com o empenho da comunidade para garantir parto seguro e prevenção do câncer às moradoras da região
Na Alta Paulista, região de cerca de 30 municípios, muitos com poucos milhares de habitantes, ter um lugar seguro para dar à luz perto de casa faz toda a diferença. Em Osvaldo Cruz, esse lugar é a Maternidade e Pediatria da Santa Casa, que em abril de 2024 entregou mais uma etapa de reforma. Foram seis apartamentos renovados e equipados, parte de um plano de três etapas para modernizar os 30 espaços da ala dedicada ao SUS.
A obra foi feita com doações de empresas, clubes de serviço e moradores. É um retrato de como a cidade enxerga a maternidade: como um patrimônio coletivo. Mas o que sustenta o atendimento no dia a dia, da primeira consulta do pré-natal ao parto, é a rede pública de saúde, financiada pelo SUS com recursos das três esferas de governo.
O caminho de uma gestante no SUS começa na unidade básica de saúde, perto de casa. Ali ela faz as consultas de pré-natal, os exames de sangue e os testes rápidos. Desde 2024, esse cuidado é organizado pela Rede Alyne, estratégia do Ministério da Saúde que substituiu a antiga Rede Cegonha. A Rede Alyne aumentou de R$ 55 para R$ 144 o valor repassado por gestante para exames de pré-natal e incluiu testes rápidos para HTLV e hepatites B e C. A meta é reduzir a mortalidade materna em 25% até 2027, e em 50% entre as mulheres pretas.
O nome da rede é uma lembrança do custo da falta de cuidado. Alyne Pimentel morreu em 2002, aos seis meses de gestação, por falta de assistência adequada em Belford Roxo (RJ). O caso levou o Brasil a ser condenado por um comitê internacional por morte materna evitável. Cada consulta feita a tempo, cada exame que identifica um problema cedo, é uma forma de impedir que histórias assim se repitam.
O cuidado com a mulher não termina no parto. Desde setembro de 2025, o Ministério da Saúde passou a garantir a mamografia pelo SUS para mulheres de 40 a 49 anos, mesmo sem sintomas, por decisão conjunta com o profissional de saúde. O rastreamento de rotina também foi estendido: antes ia até os 69 anos, agora vai até os 74. A faixa dos 40 aos 49 anos concentra quase um quarto dos casos de câncer de mama no país. Ampliar o acesso nessa idade significa encontrar tumores menores, com tratamento mais simples e chance de cura maior.
Para as moradoras de cidades pequenas da Alta Paulista, essas regras fazem diferença concreta. Sem uma rede pública que organize o pré-natal, a regulação dos partos e o encaminhamento para exames, cada família teria de resolver sozinha, e muitas vezes longe de casa, o que hoje chega pelo sistema. O risco seria pagar caro por exames que o SUS oferece de graça ou, pior, adiar o cuidado até que o problema se agrave.
O exemplo de Osvaldo Cruz mostra que a saúde da mulher se constrói com várias mãos. A comunidade cuida da casa onde os bebês nascem. O SUS garante que a mãe chegue até ela bem acompanhada, e que continue sendo cuidada depois.